Com muita saúde…

por Eme João | 2014.12.14 - 14:16

 

 

Quando era miúda, por volta dos treze anos, estava no 9° ano e tinha uma disciplina chamada Saúde. Lembro-me perfeitamente da primeira aula, que para além das apresentações, em vez da professora começar logo a “despejar” matéria, colocou-nos uma questão, perguntou-nos o que era saúde.

Depois da animação que era habitual e própria da idade, lá chegámos à definição de saúde, segundo a OMS: ” saúde, é a situação de completo bem-estar fisíco, psíquico e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”.

Mas há muito que esta definição parece ter-se diluído no ar. Agora, quando chegamos a esta altura do ano, é comum as pessoas desejarem as boas festas e é comum incluírem a frase: “… Com muita saúde.”

Ora, esta frase que nos sai automaticamente, seguindo o conceito de saúde, abrange não apenas desejarmos ao outro a ausência de doenças, mas sim que possamos ter condições mínimas para podermos ter uma vida com dignidade e portanto uma vida saudável.

Acontece, que nesta altura em que o calendário anuncia o fim de mais um ano, veremos muitos daqueles que que tudo têm destruído, vir à televisão precisamente desejar votos de bom ano com muita saúde, ao povo que apenas tenta sobreviver, ou vermos explodir a caridadezinha, que vai dando uns cabazes de alimentos nesta altura do ano, esquecendo-se que as pessoas não comem apenas no Natal, alimentando assim a falta de “saúde” desta sociedade doente e o ego dos grandes senhores que dão esmolas aos “pobrezinhos”.

A verdade, é que esta sociedade é uma sociedade profundamente doente e não se antevendo cura para breve, vamos assistindo à proliferação de “curandeiros”, fazedores de movimentos, apelando à bela poção que de magia já não tem nada, e vendedores de banha da cobra ainda mais vendidos, do que os agentes patogénicos que de forma pandémica nos têm destruído a vida.

Nasceu em Lisboa em 31/10/1966. Estudou psicologia no Ispa. Trabalha actualmente no ISS.

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