Ciganos de Abraveses

por Carlos Cunha | 2016.12.09 - 07:40

 

 

Esta semana ficou marcada por uma ação súbita e inesperada que levou à mudança para Paradinha de cerca de 40 cidadãos de etnia cigana, sendo que quase metade destes são menores, oito dos quais alunos das Escolas de Abraveses.

Para quem não sabe, estes ciganos de que falo residiam junto à rotunda que se situa próxima do quartel da GNR há vários anos, num aglomerado de casas. Chamar casas ao sítio onde estas famílias habitavam é certamente um eufemismo, pois na realidade, o que quem por ali passava via era um bairro de lata e gente que vivia em péssimas condições de habitabilidade, indignas da condição humana.

Ao vê-los partir, acredito que moradores e comerciantes de Abraveses e Pascoal sentiram um enorme alívio até porque, durante anos foram, vítimas de furtos e nem mesmo a proximidade da GNR era suficiente para dissuadir estes comportamentos delituosos. Acredito também que houve muitos problemas que foram resolvidos e objetos recuperados graças à pronta ação daquela força de segurança.

Estas famílias, que residiam em Abraveses, resistiram até onde puderam à mudança para Paradinha, argumentando que se tratava de um bairro com inúmeros problemas no qual não se sentiam seguros. Calculo que houvesse “contas” antigas por saldar fruto de rivalidades, quezílias e zangas.

Estas crianças e jovens adolescentes tinham várias respostas educativas facilitadoras da sua inclusão nas escolas que frequentavam. Para além do trabalho dos professores e auxiliares, estes alunos dispunham ainda de apoio psicológico, terapia da fala e alimentação. No último ano, em parceria com a Escola de Dança Lugar Presente e com o apoio financeiro do Município foi implementado o Projeto Todos Dançam.

A mudança repentina destas crianças e jovens para Paradinha acaba por constituir um retrocesso no seu desenvolvimento escolar, até porque serão sujeitos a um novo período de adaptação. É preciso não esquecermos que para lá do que a escola lhes oferece estas crianças nada mais têm, ou seja, não andam no Basquete, na música, no futebol ou no atletismo, apesar de gostarem dessas atividades como qualquer criança da sua idade. Porém o acesso às mesmas está-lhes vedado, pois, os pais não as pagam, alguns por não terem dinheiro para tal, outros porque simplesmente têm outras prioridades onde gastar o seu dinheiro.

Em boa verdade, o caminho a trilhar para uma mudança de rumo terá de começar sempre pelas crianças, mas ainda não vi uma única criança de etnia cigana a jogar futebol num qualquer clube da cidade e isso diz-nos que ainda há um longo caminho a percorrer.

Em Paradinha, a Cáritas anda há vários anos a remar contra a maré e os seus técnicos merecem o nosso reconhecimento, pois, sabemos que o trabalho que desenvolvem é feito de inúmeros retrocessos e escassos progressos, mas a resiliência que empreendem na sua ação leva-os a acreditar que alguns daqueles que apoiam conseguirão alcançar o seu lugar ao Sol, felizmente já existem alguns casos bem-sucedidos.

Apesar da Autarquia e Junta de Freguesia de Abraveses terem conjugado esforços com as entidades policiais e segurança social para que a mudança se processasse com relativa normalidade, assistiu-se, no fundo, a uma mudança de sítio do problema, correndo-se risco de o agravar fruto dos conflitos que possam surgir entre as famílias desavindas, para além de aumentar exponencialmente o descontentamento dos habitantes de Paradinha.

Paradinha é um bairro de risco, para o qual a Autarquia terá, a breve trecho, de apresentar um Plano de Intervenção, a bem de todos.

Quando tal acontecer estaremos a dar passos em frente em direção à inclusão.

Carlos Cunha é militante do CDS-PP de Viseu e deputado na Assembleia Municipal. Licenciado em Português/Francês pela Escola Superior de Educação de Viseu concluiu, em 2002, a sua Pós Graduação em Educação Especial no pólo de Viseu da Universidade Católica Portuguesa.

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