Chá de Tília

por Filomena Pires | 2016.07.19 - 12:02

 

Gosto de tílias. São elegantes, poderosas, exuberantes e bonitas. O seu porte é verdadeiramente imponente, resultado de um ritmo de crescimento muito próprio. O seu aspeto é majestoso. As suas delicadas flores amarelas em forma de coração, libertam um perfume sublime. A floração não dura muito tempo, por isso as flores se dizem efémeras. Mas a árvore é dotada de uma longevidade pouco vulgar.

Era tida como sagrada entre as antigas civilizações germânicas. Em França, tradicionalmente, o chá das cinco para as crianças era de tília, tomado à sombra da própria árvore para que o efeito calmante fosse mais eficaz. Diz-se na Irlanda que aquele que adormecer debaixo de uma tília será transportado para a terra das fadas. Venerada no centro das povoações, é frequentemente plantada em renques nas áleas dos parques e jardins públicos.

Não temos em Viseu qualquer Unter den Linden como Berlim, mas temos o Rossio e a Avenida 25 de Abril para nos deliciar os passeios do início de verão. Todos os anos nos inebriam os sentidos: de cor, de forma e de odor. Cheirar as tílias parece-me uma agradável ideia. Já a proposta da Câmara de convidar os visitantes do Centro Histórico a “Voltar a cheirar as tílias”, provoca em mim aquela reserva fundada de que estamos na presença de mais um inconsequente slogan propagandístico.

Senão vejamos: o desafio é feito no sentido de deixar o automóvel em casa (uma impossibilidade para os moradores do CH); usar “outros meios de mobilidade suave – a pé, de bicicleta ou shuttel”; contribuir “para melhorar a qualidade desta zona nobre da cidade”; utilizar um aparcamento de baixo custo, num estacionamento subterrâneo, sem qualquer garantia de segurança, bem como o autocarro pendular gratuito entre as 19 e as 2 horas.

Melhorar a qualidade do ambiente urbano e preservar o património da cidade parece-me um excelente objetivo, uma obrigação de todos os munícipes. Retirar o trânsito do CH é um desígnio, ainda que tarefa de grande complexidade, atendendo aos diferentes interesses que ali se congregam. Como entender estes objetivos se a pedagogia do Município é a repressão? Nos últimos dias, a PSP tem distribuído pelos incautos bilhetinhos de 30 euros, mas só em determinadas horas. Para onde se deslocaram os agentes da PSP que, numa ação verdadeiramente de proximidade, criadora de um real sentimento de segurança, ganharam rosto no âmbito do “Contrato Local de Segurança”?

Será que os “laboriosos pensadores” da afinada máquina de propaganda municipal, não acharam útil para o êxito da campanha a distribuição regular aos visitantes de um panfleto atrativo, elucidativo, com indicação dos lugares de aparcamento ou as vantagens para a saúde e para o ambiente do passeio apeado? E porque não a oferta de senhas de estacionamento, a divulgação de dados que comprovem a diminuição dos níveis de CO que as adoradas tílias teriam de absorver?

No final da campanha camarária, lá para setembro, atingido o milhão de visitantes na Feira de S. Mateus, quando as tílias já perdem as folhas transformadas em festival cromático e os odores forem outros, duas avaliações serão inevitáveis. A do Presidente da Câmara que em conferência de imprensa dirá que foi um êxito, contabilizando exaustivamente o número de passagens do shuttel pelo Centro Histórico, o elevado número de utentes que transportou, o número de quilómetros que percorreu. A segunda, constatará que a campanha foi um fracasso, vencida pela força dos lobbies que se movimentam no Centro Histórico.

 

 

 

 

Professora de Filosofia, Membro da DORV do PCP, Dirigente do SPRC e Eleita na Assembleia Municipal de Viseu pela CDU

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