“CAVALOS DE DEUS”

por José Carreira | 2015.02.22 - 12:50

 

A propósito do terrorismo jihadista, Jordi Soler (La Cuarta Página, El País, 21/02/2015) refere o livro de Mahi Binebi intitulado, no original francês, “Les Étoiles de Sidi Mouhen”, traduzido em inglês como “Horses of Good” (Cavalos de Deus). Sidi Mouhem é um bairro marginal de Casablanca onde vivem muitos jovens pobres que sonham ser vedetas do desporto, como Cristiano Ronaldo ou Messi…

O autor narra as histórias de vida destes jovens, iguais a tantos outros que, apesar de viverem noutras latitudes, têm traços comuns. São pobres, vivem nos bairros suburbanos das grandes cidades, as suas famílias estão desestruturadas e o futuro não lhes sorri, tal como já tinha ocorrido aos pais e aos avós…

São o espelho do fenómeno de reprodução da pobreza, quem nasce pobre num bairro social tem fortes possibilidades de crescer, viver e morrer na miséria. Bem, a não ser que se dediquem a negócios ilícitos e engrossem as fileiras da criminalidade. São os alvos perfeitos para recrutadores inescrupulosos que precisam de quem os siga cegamente e a quem seja fácil vender o sonho de uma vida (ou morte) melhor. O autor deixa essa ideia bem clara: “O Ímã é a única oportunidade que têm muitos jovens de escapar da miséria o qual encerra um desgraçado e obscuro paradoxo: a única forma de dar sentido às suas vidas é acabando com elas.”

Entretanto, o Observador informa que osLíderes socialistas europeus acertam posição contra terrorismo e austeridade” e assinam a resolução “Unidos contra o medo” e o documento “Mais emprego, melhor e mais justo”.

Se a notícia está completa, considero que os socialistas perderam uma boa oportunidade de interligarem a criação de emprego com o combate ao terrorismo. Os dois documentos poder-se-iam fundir num só. Mais, melhor e mais justo emprego, uma tripla de sucesso, especialmente se associada ao fim da austeridade.

Volto a citar Jordi Soler: “As medidas de proteção, de controle e de espionagem que agora implementa a União Europeia terão que ser acompanhados de uma inversão e de uma presença nesses bairros onde a pobreza e a falta de oportunidades funcionam como abono para o jihadismo, mais do que reprimir e isolar, devem conceder e integrar, dar a esses jovens outra opção, evitar que se convertam em “Cavalos de Deus”.

A velha Europa é um sonho para milhares de pessoas que procuram uma vida melhor. Muitos morrem afogados no Mediterrâneo. Os que conseguem pisar solo europeu, na maioria dos casos, não têm sucesso, não se integram, guetizam-se e ficam à disposição de quem lhes devolva a capacidade de sonhar, por exemplo, com virgens após o rebentamento de uma bomba.

Não se suicidam por uma causa, suicidam-se pela ausência de causas!