CAVALHADAS DE VILDEMOINHOS – A festa que veio à cidade

por Alberto Correia | 2016.06.21 - 16:05

 

No princípio Vildemoinhos era quase só um povo de moleiros. E de padeiras também, essas aventurosas mulheres que carregavam canastras de vime ou corra com o pão ainda quente para as bancas da Praça da cidade. Algumas eram também tecedeiras. Umas e outras ensinavam as filhas que chegaram quase ao nosso tempo com o saber-fazer de antanho. Broa quente ainda fazem, simples, quase doce ao paladar ou então tendida com a mão, baixinha, recoberta de sardinha ou de carne temperada em vinha- d’alhos, água na boca do sabor ao cheirar ainda no forno.

Mantas restam algumas em museus ou em arcas de memória. Cesteiros também havia. Habilidosos. Muito antes de nascerem as seculares Cavalhadas. Vasco Fernandes tinha uma cestinha na oficina, talvez para guardar a merenda ou os pincéis, uma bonita “amieira” que Nossa Senhora acaba por levar no braço quando, à pressa, teve de fugir para o Egipto na pintura deixada no museu.

Vildemoinhos pode ser povo miúdo mas é um povo com história!… E dentro dela o maior conto tem a ver com as Cavalhadas. Que, lá no fundo, as Cavalhadas têm um fundo de verdade, a dos moleiros que vão à luta para a defesa do seu pão.

Era uma vez!… Deixara de correr água na Ribeira do Pavia que atravessa a sua terra e o sono dos moleiros quebrou-se noite fora quando os rodízios dos moinhos deixaram de andar. No sobressalto levantaram-se e lá vão, de madrugada, cortar os açudes a montante que os lavradores tinham erguido para a rega dumas hortas, quando a água da Ribeira não lhes pertencia por direito. Inconformados, reagem mal os camponeses. A querela sobe a tribunal. Diz-se em contos largos que a queixa seguiu ao Tribunal Real. E foi então que as mulheres dos moleiros, a gente toda em nome da aldeia, fez promessa a S. João, ao santo que tinha capela na Carreira, de ir lá em romaria, no seu dia, enquanto o mundo fosse mundo, se o Rei despachasse a seu favor as águas de Verão. E o Rei assinou o pergaminho que no tempo se perdeu. E houve festa logo que a nova chega, à noitinha, num correio, à aldeia. O povo inteiro logo de manhã foi de romagem à capela, lá longe, na Carreira. Atravessaram a cidade. Foram e vieram a cantar. E depois sempre foi assim pelos anos fora. Mil anos hão-de vir e sempre haverá de ser assim. Que as Cavalhadas tornaram-se também Festas da Cidade. Festa grande de Viseu.