«Cavaleiro da triste figura» ou as tristes figuras do cavalheiro…

por Amélia Santos | 2015.12.11 - 11:47

 

Um dos livros mais extraordinários que li  foi D. Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. Li-o numa fase já madura da minha vida e daí que o efeito da leitura tenha sido também ele mais sumarento, mais intenso e meditativo…

No início, dei por mim, várias vezes, a rir do ridículo D. Quixote. A sentir comiseração pelo louco cavaleiro da Mancha. E a reflectir, consequentemente, sobre a metáfora que encerra esta simpática e engenhosa personagem.

Cervantes foi um génio que, na época em que viveu, criou uma personagem envolta em loucura para conseguir, por meio dela, dizer tudo o que não seria permitido, nem possível, dizer de outra maneira. Não foi o único. Também o nosso Gil Vicente criou o parvo, no Auto da Barca do Inferno, para poder usar de sinceridade, de crítica social e de costumes, sem castigos nem problemas com o poder, «Ridendo castigat mores» – A rir, se criticam os costumes.

Mas Cervantes foi genial na construção deste personagem, aparentemente simples e ingénuo. E a sua genialidade consiste em fazer o leitor pensar, sentir e voltar a pensar… E, no meio destes pensamentos, encontramo-nos todos nós leitores. Confrontamo-nos com as nossas loucuras e com os nossos sonhos. Percebemos que todos somos, de alguma maneira, Quixotes. Todos temos fantasias inconfessáveis, ridículas, das quais nos envergonhamos e sobre as quais não falamos com ninguém. Através do D. quixote, Cervantes entra no nosso íntimo, agita as nossas emoções e, por vezes, nem percebemos porquê… Mas está tudo ali…

Não será por acaso que este é considerado um dos livros que mais interpretações suscitou no mundo inteiro… Parece ser um livro-biblioteca, que contém dentro dele centenas de outros livros, de inúmeros significados e metáforas poderosíssimas. Um livro sobre cada um de nós.

De repente, dei por mim a pensar que mesmo ao nosso lado, ou no andar de cima, vivem também D. Quixotes verdadeiros. Verdadeiros, porque não são saídos da literatura. Verdadeiros porque habitam um mundo que não é o da arte, é o nosso, o das pessoas de carne e osso… E é confrangedor olhar para alguns quixotes da actualidade – uns loucos que encontram sempre escudeiros-Sanchos que os acompanham, que os bajulam e os ajudam a sentir-se verdadeiros cavaleiros dignos de atos heroicos. Talvez estes sanchos também esperem um dia receber uma ilha como recompensa pelos atos nobres que vão praticando… genuínos “destruidores de males, que endireitam tortos e desfazem agravos”… É, certamente, essa recompensa final que os move…

Estes Quixotes da atualidade são reais porque não foram criados por nenhum Cervantes, nem consta que tivessem lido romances de cavalaria, nem outros… (Aí estará certamente o problema!) São as frouxas imitações de alguma literatura de autoajuda, que de literatura nada têm e quanto à ajuda… também nada a referir… Ajudam-se os quixotes e os escudeiros. Os sanchos e os cavaleiros. Vazios de significado. De metáforas ausentes.

Estes quixotes da atualidade já não provocam o riso, só perderam o siso. Deveriam ser impedidos de mandar ou supostamente liderar. Deveriam ser remetidos à sua condição de cavaleiros das tristes figuras ou das figuras tristes…que fazem!

São o que são e o que vemos. Nada mais do que a crua realidade. Combatem moinhos e já nem creem que sejam gigantes… São uns gigantes pequeninos…

Resta aos mais lúcidos desfazer a farsa. Retirar a máscara e devolver ao Quixote toda a sua sabedoria, toda a sua dimensão espiritual e poética!

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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