Catarse

por Renata Aguiar | 2015.12.07 - 19:47

«Escreve qualquer coisa!», disse o P.. «Não», respondi eu, «hoje seria demasiado cáustica».

Gosto de ouvir o P.. Ele tem sempre muito mais para contar do que eu, apanágio dos anos vividos e de uma sagacidade e uma inteligência notáveis. Talvez fruto disso, tem também uma análise muito válida sobre as ínfimas coisas que fazem o dia-a-dia de cada um de nós. Uma visão desapaixonada e honesta, que poucos conseguem transmitir.

«Preocupações são pré-ocupações», ensinou-me ele.

Ensinou-me também que, às vezes, precisamos de ter um certo grau de resignação. Perante a ufana ignorância, perante a abjecta indiferença, perante o bacoco pedantismo, perante a impiedosa dor, perante a morte da meritocracia.

Eu, a quem falta a fleuma que só a vivência ensina, ainda acredito que tenho um papel a desempenhar naquilo que acredito ser a coerência inerente a existirmos. Mas, à medida que o tempo escorre, vou entendendo que, se é certo que há uma ordem no mundo, também o é que muitas vezes ela tarda em revelar-se; e que nós somos maioritariamente peões, e não jogadores, nessa ordem já adivinhada.

No outro dia, perguntava-me um amigo se estaria, afinal, nele, o problema que via à sua volta, em todo o lado. Respondi-lhe que a capacidade de se questionar a si próprio antes de apontar o dedo ao mundo era, já por si, uma resposta, um sinal de humildade.

Às vezes, tudo o que nos resta é saber olhar, contemplar. Reconhecer que nada podemos contra a irreversível cegueira. Aquilo que nos sobra é sermos fiéis à nossa probidade; às promessas que fizemos aos nossos pais, aos nossos mortos, aos nossos pares (e àquela em que evocámos Hipócrates). Temos de saber não nos deixarmos corromper pela ditadura do «fácil» e do «imediato». O nosso papel é, simplesmente, fazermos e sermos o melhor que conseguirmos, de acordo com aquilo em que acreditamos. Infelizmente, isso não chega para mudar o Mundo; mas pode tocar o mundo pequenino de muitas vidas, e assim ajudar a repor-lhes a ordem.

Como disse C. S. Lewis, «integrity is doing the right thing, even when no one is watching»; e devemos ter um sóbrio orgulho na nossa integridade, que nos alimente quando, à nossa volta, o olhar nos devolva uma imensa desolação.