Cartas de longe – Em tempos de guerra não se limpam armas

por Nuno Rebocho | 2015.06.21 - 20:26

Ao cabo de alguns anos “exilado” em Cabo Verde, que aturou o meu regresso a África quando resolvi emigrar como consolo de uma pré-reforma antecipada que foi escapatória de ameaça de um processo disciplinar visando despedimento (por recusar obedecer a uma canga que não suportava), regressei durante um mês a Portugal. Quis rejuvenescer com os ares da santa terrinha, respirar fundo e rever amigos, sobretudo conhecer duas netas que no torrão pátrio nasceram e nele ficaram. Foi tempo de apreciar as modas, saber se tinham fundamento as novas que, lá longe, fui recebendo e me preocupavam.

Aconteceu que, indo a um almoço com um amigo em certo restaurante lisboeta, necessitei de me aperaltar e busquei um engraxador para limpar os sapatos. Fui a cinco cafés de Entrecampos, desesperadamente tentei encontrá-lo nalgum sítio e foi quase o achar de uma agulha num palheiro: do desejado engraxador, outrora frequentes nos cafés e restaurantes de Lisboa, nem mandados. Fiquei surpreendido – tanto se queixam do desemprego em Portugal, centenas de milhares constava nos jornais… mas engraxadores nem vê-los.

Explicou-me o conviva que essa falha que me surpreendia era consequência de as gentes fugirem a sujar as mãos em trabalhos que se supõem impróprios e degradantes. Degradantes? Haverá algo mais degradante que o desemprego? Então, os portugueses emigrados acaso não se sujeitam às tarefas mais mesquinhas, procurando antes do mais sobreviver? Não é o que cada um faz em Inglaterra ou nos Estado Unidos, por exemplo? Quantos dos hoje milionários não vieram do mais “baixo”?

Não achava uma explicação racional para isto: tratar-se-ia de uma questão de cultura, de mentalidade… de outra forma, não se entenderia que as pessoas preferissem sofrer o desemprego a sujar as mãos. Isso estaria demonstrado pelas estatísticas que tinha conhecimento – há milhares de ocupações abandonadas em Portugal porque ninguém as quer.

É verdade que as dificuldades são muitas neste país. É verdade que os tempos estão difíceis. É verdade que abundam contratempos. Mas é verdade também que as vaidades que as pessoas perfilham, sempre preocupadas com o que os outros dirão de eventuais “rebaixamentos pessoas”, pouco ajudam a superar as dificuldades que nos calham.

Com mil diabos: em tempo de guerra não se limpam armas!