Cartas ao Senhor Doutor

por Alexandra Azambuja | 2017.02.05 - 09:31

 

 

Senhor Doutor Paulo Neto,

 

Folgo que esta o vá encontrar de saudinha, que isso de madrugar e dar corda aos sapatos depois de insónias e malgas de café frio não lembra a ninguém, ó valhamedeus…

Tenho ouvido a senhora Marquesa dizer muito alto cá por casa que ” lá em Viseu devem ser todos uns exigentes, já não se lembram dos tempo de antigamente em que uma côdea e uns sapatos velhos eram quanto bastava para se ser feliz“.

Diz também que é ano oficial para visitar Viseu e que devia ir agradecer ao senhor doutor a paciência para aturar políticos e imbecis, mas eu isso de política não percebo nada que só fiz a 4ª classe mal amanhada com a Professora Graciete que era filha do Zé Manel da merceria e foi para Coimbra estudar para professora e dizem que se perdeu por lá de amores com um Doutor dos rins mas depois já se sabe, doutores de Coimbra são gente que não se mistura com ninguém, em calhando com gente cá da terra muito menos e também os rins não são o coração, toda a gente sabe que um bocadinho de coração sempre amacia um Doutor…

Ora calhava mesmo bem que eu, que não conheço a terra que troca os Vês pelo Bês, um dia fosse aí  à terra do senhor Doutor.

É que nunca ninguém está contente com a terra que em sorte lhe calhou e eu tenho cá para mim que se for verdade que aí têm dois jardins, dois?? – disseram-me que se chamava um  o Jardim das Mães e outro o Parque Aquilino Ribeiro –  se podem dar por bem felizes.

É que aqui em Leiria, Deus me perdoe, não temos nada disso. Havia antigamente um Jardim, bem bonito, chamado Luís de Camões, ainda me lembro da escola e era escritor o homem, tenho a certeza, não é a mesma lindeza de ser Doutor claro, mas pronto já é difícil e mais a mais era cego de um olho devia custar a dobrar escrever tanta letra, mas jardim, jardim, já não temos. Só umas flores raquíticas e outras coisas muito feias e tubos de rega semeados que parecem cobras pequenas e mal amanhadas.

O senhor Doutor desculpe esta conversa toda mas a senhora Marquesa diz tanta vez que o senhor Doutor é que devia mandar aí nisso tudo que me lembrou de perguntar-lhe:  mas porque raio é que este é o ano de visitar Viseu? É assim uma espécie de profecia?

Eu ainda ficava aqui mais um bocado na conversa mas tenho de ir ver se não me patanham o chão todo da cozinha, que já  passei a pano duas vezes, e daqui a nada a senhora Marquesa começa com aquilo da música muito alto  e já não se aguenta.

O senhor Doutor desculpe qualquer coisa,

 

Henriqueta