Capitalismo

por Eme João | 2016.11.09 - 19:29

 

 

Podemos ter ficado indignados com a eleição de Trump para a presidência dos Estados Unidos, mas se recuarmos no tempo, percebemos que isto era muito mais previsível do que suponhamos.

Poderíamos recuar até à Revolução Francesa e à Revolução Industrial mas tornaria o texto demasiado longo. Portanto irei apenas focar me numa atribuição deste acto social, a que Max Weber chamou sentido do acto, ou se há um efeito existiu uma causa. Se há uma causa podemos ter um efeito.

Podemos atribuir como causa dos resultados das eleições dos EUA, o velho e doente capitalismo. Este baseia-se em 4 pontos (o trabalho, a ideologia, o fetiche e a alienação) que sustentam a sua essência: Propriedade privada, classes sociais e consumo. Quando um destes pontos falha, há uma crise.

Com o desenvolvimento do capitalismo industrial, surgiram a partir de mais ou menos 1800 até aos dias de hoje várias doutrinas económicas.

A primeira, a liberalista de Adam Smith, que termina por volta de 1932, propõe um sistema em que o Estado não intervém na lei livre concorrência, nem na lei da oferta e da procura. Mas, a lei da oferta e da procura, para que haja equilíbrio, estaria sujeita ao que alguns autores chamariam de lei da mão livre.

Em 1929, houve uma enorme crise, provocada precisamente pelo desequilíbrio entre oferta e procura, ou seja tínhamos uma super produção e uma sub-procura.

Com esta crise, uma nova doutrina surge. A doutrina Keynesianista de Keynes (1932-1945) em que o Estado não só controlaria a económica como também desempenharia um papel assistencialista. O que hoje denominamos Estado Social, com escola pública, saúde pública, etc.

Mas se por um lado esta doutrina parecia ser o remédio para a crise, por outro lado, na Alemanha em 1933 é eleito democraticamente um louco. Hitler. Portanto, a sua eleição teria como causa a crise de 1929.

Vivemos então o período mais negro da história da humanidade a 2ª Guerra Mundial. E em 1945, quando esta termina deixando o mundo num caos, surge a doutrina económica do estado social que irá até 1970 e que é semelhante à liberal, mas com um dos pontos da Teoria Keysianista. O assistencialismo social.

Mas se entre 1945 e 1955 os Estados puderam proporcionar esse assistencialismo, a partir daqui não mais puderam. E é então que a banca intervém. Com o primeiro empréstimo, vem o segundo, o terceiro, a bola de neve até aos dias de hoje.

Quando por volta de 1970 a banca percebe que os Estados não iriam pagar as suas dívidas, começa a pressionar os Estados a acabarem com o assistencialismo social. Surge então uma doutrina (desde 1970 até aos nossos dias), denominada de neo-liberalismo. Como o próprio nome indica, é igual ao liberalismo mas com duas novas vertentes: Privatizar o Estado e a Globalização.

Resumindo, sempre que há uma crise, o capitalismo tenta regenerar-se e enquanto faz o curativo cria monstros. Em 1929, houve uma grande crise. Em 33 surge Hitler, xenófobo, racista, homofóbico, um sociopata alucinado, eleito democraticamente por um povo alienado (o quarto ponto base capitalismo). Em 2009, houve uma grande crise da qual ainda não saímos. Já temos a nova doutrina variante do liberalismo o ultra-liberalismo. E ontem, um povo alienado elegeu democraticamente, um xenófobo, racista, alucinado, narcísico e potencialmente perigoso chamado Trump.

Como o texto já vai muito longo, só para relembrar que a Alemanha não estava só, a Itália também era fascista. Hoje, Trump não está só, a sua amiga francesa já se prepara para as presidenciais francesas. Confesso, que nada do que ontem aconteceu me surpreendeu e julgo que o pior estará para vir.

Nasceu em Lisboa em 31/10/1966. Estudou psicologia no Ispa. Trabalha actualmente no ISS.

Pub