CAFÉ ROSSIO EM VISEU

por Cílio Correia | 2017.01.25 - 15:10

O Café Rossio fazia o redondo. Era lindo. Lendário. Ocupava um espaço privilegiado no coração da cidade. Por cima havia um salão de jogos. Acabou por fechar para dar lugar a um banco.

Dei há dias um passeio e meti-me no antigo vespeiro da rua Direita. Hoje, está quase vazia. Andar pela rua Direita ou do Comércio era um festim. A espanhola Zara, a H&M sueca e a C&A transformaram o quotidiano. Nota-se a falta do bulício de outrora. Havia gente aos magotes nos cafés e pastelarias, locais de encontro e conversa amena: “encontramo-nos no Montebranco”… “estou no Palladium”… “tenho que ir ao Horta”…

Tanto faltam os “polidores de esquinas” a falar contra o governo e na crava, como clientes nas lojas de pechisbeque, bugigangas, ferragens, meias, panos, retrosarias, ourivesarias, papelarias, sapatarias, alfaiatarias, camisarias… e lojas de fruta, mercearia e miudezas. As portas estão lá, mas com os donos à porta. Falta o M. a dizer asneiras, a coxear e a coçar os tomates. O J. colado ao banco da tasca, de cotovelo apoiado no balcão de mármore, a vociferar contra a cambada. O L. esticado no passeio, à espera de boleia para Oliveira de Barreiros. A C. a dizer, “anda cá, meu querido”, ”chega-te cá, eu não mordo”…

Falta um roteiro dos cantos da cidade antiga, da vida associativa, dos jogos de bilhar e matraquilhos, das livrarias alternativas, cinemas, cineclubes ou teatros, enfim, do rossio e das quatro esquinas onde se juntavam coleções de camones prontos a partir aos molhinhos para o circuito das tasquinhas e enfardar uns copanázios.

Cada geração cumpre o seu calvário.