Boas Festas na AB6 Nova Freixo

por Ana Beja | 2015.12.20 - 23:19

Recordo-me como se fosse hoje, diz-me o meu pai! Estava na AB6 (Aeródromo Base) em Nova Freixo, distrito do Niassa, norte de Moçambique. Corria o ano de 1973 e tinha embarcado de Lisboa, no dia 13 de maio. Perdi a oportunidade de ficar em Lourenço Marques ou na Beira. Sorte tive (ou não) com a rendição de um camarada! E lá fui eu…18 meses. Para Nova Freixo, atual Kuambo.

Era uma base de evacuações e também o centro de reabastecimento de aviões e alimentação para todo o distrito do Niassa e Cabo Delgado, onde estava concentrada toda a guerrilha de Moçambique. Por lá passavam todo o tipo de evacuados de guerra com destino a Nampula (Comando Operacional) ou à Metrópole, dependia dos casos. Não foi nada fácil. Tinha 22 anos e tinha em mim todos os sonhos do mundo! E definitivamente, esses não passavam por estar 18 meses num cenário de guerra. A adaptação foi difícil. Valeu-me a amizade com alguns e a terra africana. As suas cores, os seus cheiros…não há terra como aquela! Acredito, digo eu. Nunca lá estive, mas deve haver uma espécie de encantamento quando se pisa aquela terra, pelos relatos que ouço.

Olha novamente para mim e continua o seu discurso. Naqueles 18 meses de Nova Freixo, recordo coisas boas e coisas más. Recordo o Natal que lá passei. Recordo eu, e certamente os meus camaradas, já que todos, naquele local, éramos uma só família. E foi isso que nos fez lembrar de que era Natal. A amizade, a cumplicidade, o isolamento, e de certa forma a tristeza de não termos ninguém nosso do nosso lado…éramos só nos! E foi Natal, porque assim marcava o calendário. Fazia um calor abrasador. Pouco havia para comer. A mesa era igual à dos outros dias. Bebiam-se umas cervejas e “bolinhas pretas”, que eram ossos ralados fritos, e já era um luxo. Não houve pinheiros, nem luzes, nem prendas. Nem a reportagem de guerra passou por lá, para a tradicional mensagem de Natal aos familiares! Não recebi prendas nem cartas. Nada. E deve ser por isso que esse natal ainda hoje me está na memória. Por não ter nada. Só damos valor às coisas quando não as temos. E eu nesse ano, soube o que era não ter nada.

A seguir foi a passagem de ano. Ainda foi pior, diz ele, levantando o sobrolho. Recordo-me de estar sentado no passeio com 2 camaradas, em frente ao local onde iria ser a passagem de ano. Passagem de ano, no verdadeiro sentido da palavra. Era só mesmo isso. O passar de 1973 para 1974. Faltavam 20 minutos para a meia noite, quando ouço o barulho de um avião a fazer-se à pista. Estranha hora para o aparecimento de um avião, pensei. O som que vinha do motor não era normal. Não era como os outros. Parecia que estava a falhar. Oh Mário, tu já estás é bêbado, diz-me um dos camaradas. O avião aterrou e algo me fez ficar ali, para o ver levantar, pois tinha a sensação de que se não tinha caído na aterragem, caía na descolagem. Seguimos o percurso do avião, pelas luzes, que começou a entrar em perda, acabando por se despenhar contra um embondeiro. As sirenes da base começam a tocar e fomos de imediato à procura do avião. Era um táxi aéreo, que tinha vindo evacuar uma menina doente com sete meses. Fomos encontrar o avião a 7 km da pista. O que vimos quando chegámos ainda está bem presente. O cheiro era fora do comum e cada vez mais intenso, à medida que nos aproximávamos.

Fui a primeira pessoa a chegar ao local do acidente e a primeira coisa que encontrei foi um sapato de homem. Depois o que restava dele. A seguir, a restante tripulação. Não se distinguiam uns dos outros. A menina vinha com a sua família. Até os corpos serem evacuados, tivemos que fazer guarda. Ficámos ali umas boas horas. Pareceram dias. Lembro-me de ser rendido 8 horas depois. Caminhei até chegar à base, atordoado e abalado com a tragédia. Entro na base. Passo pela messe e dirijo-me às camaratas para ver se limpava dos olhos as imagens do que tinha visto. Para ver se tirava do meu corpo o peso daquela noite. Daquela passagem de ano. Bato a continência ao meu Tenente-Coronel, que estava à entrada da porta e quando finalmente viro as costas e prossigo o meu caminho, ouço ao longe, alguém a gritar: Ó cabo Correia, feliz 1974!

 

Esta é uma das muitas histórias que eu ouço contar ao meu pai, quando esteve na Guerra do Ultramar. Apesar de tudo, sente uma enorme saudade desses tempos e de tudo o que lá viveu. Ainda hoje sente o cheiro daquela terra, diz ele. E quando me fala do que lá viveu, fá-lo com um brilho especial nos olhos, assegurando sempre que ainda tem muito mais para me contar!