Boa sorte para os exames! Lá terá de ser!

por Ana Albuquerque | 2015.06.14 - 17:47

 

Na quarta-feira, os meus alunos do décimo segundo ano fazem exame de Português. Foi um ano difícil para mim e para eles. Turmas de 30 alunos, com uma grande diversidade de jovens com percursos familiares e histórias de vida escolar muito diversificadas, possibilitarão o tal trabalho de desenvolvimento de “conhecimentos, capacidades e atitudes” exigido na retórica oficial dos discursos? E já não utilizo termos como competências e, muito menos, educação para a cidadania, educação sexual e participação em atividades de complemento curricular! Todas essas coisas estão vedadas, na prática, a alunos que lutam, é mesmo o termo, por uma nota de acesso e de sucesso nos exames nacionais.

O currículo de português do ensino secundário, ainda em vigor, para o ano há outro, preconiza que os alunos sejam ensinados e avaliados em diferentes domínios como: a oralidade, nas duas vertentes da compreensão e da expressão; a leitura, na dupla função da fruição e da aquisição de conhecimentos de textos literários canónicos; a escrita de textos de natureza expositiva e argumentativa; a gramática; a pesquisa, seleção e tratamento da informação e… Tudo isto!

Pensemos, apenas, no número de aulas que são necessárias para que todos os alunos, os tais 30, tenham a possibilidade de, uma vez por período, fazerem uma, mesmo que pequena, apresentação oral formal que, por imposição do MEC, tem o peso de 25% da sua avaliação! E a planificação e redação de textos argumentativos, de reflexão crítica, treinada com os tais 30 alunos, como se faz? Deixemo-nos de hipocrisias discursivas!

Quarta-feira, os meus alunos fazem exame de Português e eu não sei se os ajudei a prepararem-se para o exame nacional ou se os ajudei a prepararem-se para serem boas pessoas, cidadãos críticos, competentes na língua que dá forma aos pensamentos de todos que a usamos e por ela crescemos e somos!

Todos bem sabemos que o nível de proficiência linguística, nos diferentes domínios, exige tempo, trabalho contínuo e diversificado. Todos bem sabemos que o desenvolvimento de competências em língua materna contribui, sobremaneira, para a diminuição de assimetrias várias e a realização de uma cidadania plena. E os exames nacionais, sim, os de português e os outros, para que servem?

Os juízos, muito em voga, na senda de um certo neoliberalismo, sobre a qualidade ou eficácia de um estabelecimento de ensino, em função das “performances” dos seus alunos na avaliação externa, colocam-nos perante o debate de duas culturas: a do produto final, o resultado, e a do processo, isto é, o aperfeiçoamento de cada aluno e de cada escola, não apenas como objetos de avaliação pública mas, fundamentalmente, como sujeitos da sua própria avaliação e do seu próprio crescimento.

 

Boa sorte para os exames, lá terá de ser!