Bife argentino

por Beatriz Magnório | 2019.12.04 - 21:18

 A existência é uma coisa muita estranha, suspicaz impugnável.

E tu, vieste “em mim” parar, com uma sagacidade que não é desembaraçadamente ágil de explicação.

Esta coisa a que teimamos chamar de vida, (eu cá, em intermediário, agrada-me pensá-la pelo interior desta metáfora),

Passa-se durante uma dança labiríntica inquestionavelmente inquietante, pois que nós nem sempre temos o azo de escolher a música e vamos oscilando os passos. Costuma ser no desequilíbrio desses estágios periódicos que nos defrontamos e edificamos a aquilo que somos.

      Qualquer tempo da vida é uma dança. Estamos sempre a ouvir um tom, mas nunca a melodia completa. Há sempre um registo. Um rasgo orgásmico. Uma biografia. O Relato de um fragmento. A (função) que se vai ensaiando. São caracterizadas linhas do tempo, que se seduzem umas às outras conforme a melodia. Coisa que é mutável.

O uso do tempo que define diretrizes, imprime uma história muito pessoal. De qualquer organismo racional.

Todas estas palavras que se penetram são cálamo meu, mas escrito a ti. Que me surges no imaginário a qualquer esquina.

      Não domino justamente a narrativa que te perfaz,

mas creio que tenham sido ingenuidades legitimamente vividas, de condição e talhe intensos, com momentos, também, menos exultantes,

Esses, índoles, à existência.

O fluxo das estações e as fases da Lua afetam a vida no campo, a vida nas urbes, o movimento de experiência, o nosso ânimo e a transmutação no tempo. Na verdade, os quatro ciclos das estações indicam pontos de mudança da carga energética da natureza dentro de nós mesmos. Porém, nas grandes cidades, o movimento da força sutil não é entendido com tanto detalhe na consciência.

      A Primavera é sempre o começo de um novo período. Cada aurora, fez de ti, a pessoa que tu és este dia. Não sei se maior. Continuarás eventualmente a florir e a desabrochar a ideia de autognose.

Mas, também,

Não sei bem quando é que se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido, provavelmente será quando trocamos chocolates por bifes argentinos. Quando começamos a gostar de tomar banho. Quando compreendemos que o jogo do Lego pode ser uma alegoria. Quando cessamos de ter medo do escuro. Quando percebemos que as pessoas não têm que ficar com a razão. Quando se compreende que há talvez um prazer inigualável em ser só mais um. Ou não. Quando se já se escapou alguma da inocência. E, dissipamos o tempo com vontades inúteis. Quando estimamos a minoria qualitativa.

      Desafiar conjectualizações não calculáveis,

Não tenho a certeza: não sei se sou crescida. Não sei se há alguma idade em que se ouse ter o traquejo de cimentar verdades absolutas.

Ter-me a necessidade de te particularizar confissões desta intrínseca natureza,

      Experimento-me há tempo, considerado pouco, mas qualquer coisa me promove a ideia de um vínculo meio que umbilical. A ti. Meio que mágico. E poder senti-lo.

Essa coisa da química, que articulam com a certeza, é talvez, meia que verdade,

Pois, que nós, me parece, termos, muita dessa que é meia verdade.

Elos de vinculação.  

      Sou gratificada pela entidade da tua figura humana. Por seres um ser inadmissivelmente fantástico ainda que com espaços de incorreções. Conseguir jogar com a palavra numa condição audaciosa, quando eu não souber. Foste o acaso mais caricato. Não sei se te posso culpar pelo acaso. Foi prazerosa a sedução. No entretanto, irromper uma nova matéria. Coisa exorbitante íntima. Pois que Matéria pode ser tudo o que ocupa espaço e possui massa de repouso, ou massa invariante. É um vocábulo integral para a substância na qual todos os objetos físicos consistem. Não há um sozinho sentido científico que seja consenso para a palavra “matéria”. Para ti também não.

Tu, és uma criatura de talhe privativamente sui generis. Singularmente, minha. Mas ninguém é pertence de ninguém. Não gosto tão pouco da ideia de uma

coisa que acaba. E tu que fantasias o mundo, alicias-me a abstração da realidade.

É Incontestável a efervescência que me é provocada por culpa de integrais tuas particularidades.

Exalta-me a sensatez.

Excitas-me. Excita-me quando me falam de coisas que eu não sei, quando me fazem pensar através duma matriz que não a minha, e tu dás-me essa pulsão. Seduzes-me. Encantas-me como se parecesse um ludíbrio.

Quase que me efetiva a uma vontade de almejar-te.  

Querer solidificá-lo. Uma coisa compacta. Corpulenta. Tesa. Aprazivelmente suave. Acontecer um paradoxo.

A FRAGILIDADE INFLEXÍVEL.

Ideia de relação maciça, a mim, se traduz num envolvimento, no qual duas pessoas se dispõem a ser um pleno amplo. Juntas. Como um puzzle. A construção da desconstrução que se repete na construção da mesma. A valorização do erro e aprendizagem do perdão.

      Não ser sobre mim, e não ser tudo sobre outro. Ser sobre duas pessoas. Sobre o encadeamento de átomos e outras partículas que possuem massa. Não fazer desmoronar peças. Incitar a estruturação de sonhos variados. Acompanhar propósitos alvo. A não abster-se, nem ceder às tentações distraídas manhosas.

O Estímulo desafiador.

Propiciar a dimensão por atravessamento um do outro. Ascendência na concentração de um ardor. Um amor vítreo. Que nunca se escape à ideia de um caso sadio. Ser força indestrutível. Existir. Perpetuar. Gozar da liberdade, dessa ousadia.

E é viver a coisa no seu auge seja pela euforia ou pelo tormento. Porque o amor conserva os dois.

Amor tem, talvez, que ver com Alguém que possa fazer tremer o teu corpo num intervalo de espaço, ou no momento que ele se suceda nulo.

      Esta fração ínfima é escrever sobre mim e coisas que com desfaçatez alivio.

Tom de desabafo. Relação amantética é mais ao menos sobre isto e outro tanto, que é (muito). Muito, sobre profusas coisas. É sobre o que o amar tem de infindável. Encontro-me a descobri-lo.

Exerces em mim fascínio e curiosidade. Persuades-me a criatura.

Transmites-me uma serenidade avassaladora, e harmoniosamente inquietante.

O desejo avoluma-se violentamente. Acontece sempre desse modo?

Processa-se psíquica vontade ininterrupta. A inflamação da líbido. Apreciar o toque. O cheiro. Almejar a ideia de um braço a envolver o teu peito enquanto a mão no teu pescoço, ao mesmo tempo que te beijo uma superfície da estrutura. Beijar-te. Experimentarmo-nos, Arte.  Ser, contigo. Ser, também cada um só. Querer todas estas mordomias contigo diz muito sobre a minha caixa torácica, e ouso-me escrever, que também sobre a tua.

      Que não fosses, tu, ser tão invulgarmente singular.

      Gosto de ti. Gostar de ti será diminuto constituir a substância do miolo impetuoso que nos mordisca o sistema límbico, O hipotálamo, O hipocampo, e a Amígdala.

BEATRIZ MAGNÓRIO