Balança Alimentar Portuguesa 2008-2012

por Rui Coutinho | 2014.04.10 - 11:16

O INE publicou este mês um estudo onde procura examinar o comportamento alimentar dos portugueses no quinquénio de 2008 a 2012. Para o efeito, foi efectuada uma análise entre despesa de aquisição de bens em 16.800 locais e a sua composição nutricional, recorrendo à tabela do instituto Ricardo Jorge, com correlações muito positivas (0.88).

A disponibilidade alimentar per capita neste período aumentou 2.1% face a 2003-2008. O valor apurado de 3.963 Kcal per capita permite satisfazer as necessidades calóricas de 1.5 a 2 adultos, admitindo um aporte de 2000 a 2500 Kcal/dia/hab.

O estudo aponta para dois intervalos com comportamentos distintos. No que medeia entre 2008-2010, registou-se um aumento na disponibilidade de alimentos; por outro lado, no intervalo de 2010-2012 ocorreu uma redução acentuada dos mesmos.

Em termos globais, de 2008 a 2012 surgiu um decréscimo no consumo de carne (-5.9 kg/hab), de pescado (-3.2 kg/hab), de vinho (-7.6 l/hab) e de cerveja (-8.3l/hab), a que se juntou uma diminuição na disponibilidade de lacticínios (-4.0%) e frutos (-10.6%). Em sentido contrário, a disponibilidade alimentar aumentou nos cereais (+2.1%), nas hortícolas (+5.8%) e nos produtos estimulantes (café e sucedâneos), cacau e chocolate (+4%).

Tendo por base a roda alimentar, que procura aconselhar as doses a ingerir de cada grupo de alimentos, verifica-se que o padrão de consumo estrutural (e apesar da redução verificada em alguns grupos) se encontra acima do recomendado. No grupo das carnes, pescado e ovos o valor supera em 10.4% o recomendado, nos óleos e gorduras 1.7%, nos cereais 3.3% e nos lacticínios 1.7% e denota-se ainda um défice nas leguminosas secas de 3.4%, nas hortícolas de 7.9% e nos frutos de 8.0%.

No referido período (2008-2012), apura-se ainda uma diminuição da disponibilidade de alimentos em praticamente todos os grupos: nas carnes, pescado e ovos -8.2%, em óleos e gorduras -2.5%, em cereais -1.0%, em lacticínios -4.0% e em frutos -9.5%. Contrariando esta tendência, observou-se um acréscimo de 5.8% em hortícolas.

Em face dos resultados, que necessitam de uma análise cuidada e ponderada, é fácil constatar que as famílias têm vindo a fazer reduções na aquisição de muitos bens alimentares.

A presumível explicação para este comportamento poderá estar relacionada com a conjuntura económica nacional, perda do poder de compra de muitos consumidores e do crescente desemprego.

Deste modo, muitos questionam se estamos a comer melhor ou pior. Embora os resultados apresentem uma visão global da situação, talvez seja conveniente saber se este comportamento se verifica em todos os extractos sociais.

Isto é, se comíamos muita proteína (carne e pescado) provavelmente o resultado é bom; por outro lado, quem já comia pouca carne e deixou de a comer, então talvez os resultados não sejam tão animadores.

Se a redução verificada na alimentação é uma consequência da condição económica dos portugueses, provavelmente não estamos bem. Se, pelo contrário, a alteração do comportamento alimentar resulta das campanhas educativas, então estamos no bom caminho.

Parece também notório que a redução do consumo de leguminosas secas e frutos indica uma possível alteração dos hábitos alimentares, situação que necessita de ser alterada.

Assim, é fácil concluir que, embora estejamos a consumir menos alimentos, a sua repartição continua desajustada e esta é, por certo, o resultado da condição económica e cultural de cada agregado familiar.

Técnico Superior a exercer funções na Escola Superior Agraria de Viseu (ESAV) com ligações a projectos agrícolas e agro-alimentares é Bacharel em Engenharia Agro-Alimentar pela ESAV, Licenciado em Enologia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) Mestre em Biotecnologia e Qualidade Alimentar pela UTAD e com o Curso de Doctorado em Bromatologia e Nutrição pela Universidade de Salamanca.

Pub