Baía Farta (I)

por Romira Jamba | 2014.01.01 - 20:43

Sou angolana mas vivo há tantos anos em Portugal que considero este país a minha segunda Pátria.

Fez 15 anos em Janeiro passado que cheguei do velho continente africano à antiga Europa.

Vim estudar e tirar um curso superior que à época não tínhamos no nosso país. Criada à beira do mar, com o Atlântico à janela, cedo o seu infinito me chamou.

Chegada a Portugal, Lisboa e suas colinas me encantaram. Só o frio, os menos 14º graus em média e a saudade, que não é só portuguesa e se os portugueses a criaram, cedo a transmitiram aos angolanos, me deram uma nostalgia, um quebranto de lágrima ao canto do olho.

Mas não estava ali para prantear o que e quem deixara. Estava para seguir em frente. Os cinco anos de universidade me pareceram curtos e à minha ânsia de saber me pareceu pouco. Em 2004 tinha obtido a minha licenciatura e em menos de um ano estava no mercado de trabalho numa cidade linda do Norte de Portugal: o Porto de tanta tradição.

Voltei à minha terra. Volto agora à minha terra todos os anos. Poupo para isso e guardo minhas férias para abraçar minha família e meu país.

Portugal acolheu-me como se eu fosse cá nascida. Nunca me senti estrangeira em Portugal. Os portugueses são afáveis, simpáticos, leais. Hoje, tenho mais amigos cá do que no meu país. Aqui, vou-os fazendo, dia-a-dia. Lá, à distância e pela lonjura e leis da vida, vou-os perdendo ano após ano.

Para mais, a sorte me deu duas famílias. A minha, original, angolana e a minha outra portuguesa. Meu homem de Portugal, um encanto, e nosso filho, nosso amor, olhos e modos do pai, meu carácter e uma cor linda de moreno beiraltino.

O nosso coração tem 4 partes. O meu só tem duas. Angola e Portugal. E nelas cabem dois mundos que não se comparam, antes se complementam, se acrescentam e, nas suas diferenças se completam.

Não escrevo uma história de sucesso. Escrevo um sentir de luta e muitos sacrifícios feito recompensado com tudo aquilo que a vida até hoje me deu e de mim faz uma mulher, uma africana realizada.

Curiosamente, o sangue de Benguela que corre nas veias de meu filho António, fá-lo adorar a terra de sua mãe e de seus antepassados maternos. Creio que um dia, António voltará por mim e fará em Angola, um percurso semelhante ao de sua mãe em Portugal.

São estes laços facilmente tecidos que nos irmanam, é este sentir assim partilhado que nos constrói, tão afirmativa e positivamente como povos secularmente fraternos. As pontes solidamente construídas, secularmente consolidadas, resistem às intempéries. E entre Angola e Portugal, países irmãos, os pilares, o tabuleiro e as aduelas foram construídos com o betão dos séculos.