ATIRAR AREIA AO MEXILHÃO

por José Carreira | 2014.12.07 - 12:11

 

A coligação PSD / CDS decidiu, empunhando a bandeira da produtividade, suspender quatro feriados. Considerei essa opção, embora legítima, ridícula e ineficaz. Mas, enfim, quem sabe, sabe…

Contraditório, a eficácia será medida em 2015, é o reposicionamento do CDS quanto à vontade de repor o feriado do 1.º de Dezembro que, segundo Paulo Portas, tem grande importância para o partido. Concordo que a comemoração da Restauração da Independência tem certamente importância para o partido e para todos os portugueses. Não teria essa mesma importância aquando da sua suspensão?

Honras sejam feitas ao deputado e antigo líder do partido, José Ribeiro e Castro, que sempre se bateu pela manutenção do feriado e tem dado voz ao Movimento 1.º de Dezembro (“O Movimento 1.º de Dezembro responde ao inconformismo nacional com a eliminação do feriado civil do dia 1 de Dezembro, determinada pela Lei nº 23/2012, de 25 de Junho de 2012.”).[1]

Num momento em que o país está atolado numa crise económica, da qual parece não conseguir sair, e tem sido bombardeado por escândalos de corrupção que envolvem os mais altos dirigentes da administração pública (Vistos Gold) e um ex primeiro ministro (Operação Marquês), trazer para ordem do dia o debate sobre o fim da suspensão de um feriado, não será mais do que atirar mais uma pá de areia para os nossos olhos.

Mais feriado, menos feriado, com ou sem tolerância de ponto, contrariando o senhor primeiro ministro, quem se lixa é mesmo o mexilhão!

Em vez de manobras de diversão, que tal colocar na agenda política a regeneração democrática e a luta contra a corrupção?

A cada dia que passa, intensifica-se a percepção coletiva, perigosa, de que as instituições basilares da democracia estão a desmoronar-se e de que não existe uma gestão fiável da coisa pública.

O conceito de serviço público ou não existe ou é utilizado a la carte. A política e os políticos, infelizmente, deixaram de ser o instrumento para solucionar os problemas dos cidadãos. Em algumas situações radicam neles (políticos) os problemas e as força de bloqueio que não permitem aos partidos fazer a urgente depuração e não esperarem que sejam os tribunais, com todos os danos inerentes para sua credibilidade e riscos para o Estado de Direito.

[1] http://www.1dezembro.pt