AS ROTAS DA CASTANHA E DO CASTANHEIRO

por Alberto Correia | 2015.11.14 - 00:10

 

(Uma nova celebração da Terra)

Vai longe o tempo em que os homens faziam, a pé, longas caminhadas.

No meio rural era a pé que se percorriam os caminhos vicinais, alguns levando até longas extremas, era demorado o curso que em tais caminhos seguiam os carros de bois que andavam carregados de estrumes, de lenhas, do pão e do vinho do viver quotidiano, e o mesmo acontecia com a lentidão do passo dos burricos que mal aguentavam os carregos de fanegas de pão para o moinho, as sacas de castanhas que em seu tempo enchiam os palhais dos lavradores, os pesados molhos de erva para o gado ou as angarelas acoguladas de abóboras.

Vai longe o tempo das longas jornadas a pé para as romarias, a Santa Eufêmia, o S. Francisco, o Senhor dos Caminhos, a Senhora da Lapa, o Senhor dos Aflitos, a Senhora da Guia de Longe ou a Senhora dos Remédios, das caminhadas para a feira quinzenal de uma vila com história, para a Feira de Ano que acontecia como festa, a dos Santos em Mangualde ou Sernancelhe, a de S. Pedro em Penedono ou a de S. Bartolomeu em Trancoso, entre as demais.

No meio urbano também se andava a pé nas idas para o trabalho, nas idas ao Café, à igreja ou ao mercado. Até que o automóvel, a sua era, submergiu estes caminhos.

Reinventam-se agora. Que ainda se fazem caminhadas, à antiga, como votos. Restauram-se as andanças por caminhos vicinais que bordejam povoados ou riscam-se de trilhos as margens da cidade onde o campo permanece abandonado. Descobre-se como é bela, afinal, a Natureza, como é ligeiro o correr das águas num ribeiro, como era poético o monástico sítio do moinho, como bem traçado era o caminho seguido pelos romanos e os godos, como cheira bem o rosmaninho, como velhos são os castanheiros que nos acompanham, tutelares, jeito de avós, à beira das veredas, como é fresca a sombra que lhes desce da ramagem, como foram solidários os homens que os plantaram há mil anos.