As palavras e as coisas

por João Fraga | 2013.12.29 - 19:23

 

Roubo o título a Michel Foucault, perdoe-se-me a “blasfémia”. Mas este texto refere-se ao PÚBLICO de sábado, 28/12/2013, onde o Dr. José Pacheco Pereira (PP) escreveu um artigo (“2014, o combate pelas palavras” – http://www.publico.pt/portugal/noticia/2014-o-combate-pelas-palavras-1617701 ) sobre “um dos problemas dos dias de hoje da vida pública em Portugal, a facilidade com que a comunicação social absorve a linguagem do poder e a reproduz como sendo sua, assim legitimando-a porque lhe dá um sujeito neutro, tornando-a uma verdade universal”.

Com um elevado sentido social, de dignidade e cidadania, escreveu Sofia, com incomparável beleza poética, que “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”.

Mas, dando razão ao que escreve PP, temos, de facto, muitos exemplos na televisão, rádio e imprensa de “esponjas reprodutoras” da linguagem do poder (e, concretamente, do poder político e do poder económico), “(contra)comentadores” e  “especialistas” do “ajustamento”, que tudo fazem para que “vendo-os” (na TV), “ouvindo-os” (na rádio) e “lendo-os” (nos jornais e livros pró “vale-tudo” e “saiam da frente”…), nos tornemos em ignorantes-“ajustados” (e vice-versa) e, sabe-se lá, como mandam as boas técnicas da intoxicação linguística, aplaudamos a nossa própria sentença de morte.

Por isso, vale a pena ler este pertinente artigo, tanto mais porque vindo de quem por lá anda(ou?), pelos meandros do espectro partidário que apoia este Governo, se bem que, então, (ainda) não com os actuais tons “políticos”.

É que convém sempre termos presente que muita da linguagem política “é desenhada para que as mentiras pareçam verdades, o assassinato uma acção respeitável e para dar ao vento uma aparência de solidez” (Georges Orwell).

As palavras fazem coisas. E desfazem…

Inspector do trabalho (aposentado), 67 anos, licenciado em Gestão de Recursos Humanos, com pós-graduação em Psicologia do Trabalho pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, residente em Santa Cruz da Trapa.

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