As interferências na morte

por António Soares | 2014.01.10 - 12:55

As interferências na morte

Somos o único animal que tem consciência da própria morte. Talvez por isso, a morte seja, ao mesmo tempo, motivo de fascínio e terror. Por um lado, queremos descobrir se há vida para lá da morte, por outro, o medo do desconhecido impele-nos a fazer tudo para a evitar ou, na impossibilidade de a evitar, adiar.

Se em algumas culturas morrer é motivo de festa, outras há em que mulheres são remuneradas, com dinheiro ou bens, para chorar em funerais de defuntos alheios. Autênticas profissionais do choro e nascentes lacrimais: as Carpideiras.

Há culturas onde a eutanásia é vista como uma forma de por termo à vida com dignidade, outras onde é crime. Em algumas matar é pecado, noutras é um livre trânsito para o Céu e para umas dezenas de virgens sedutoras em lingerie Victoria’s Secret.

Mas de todas as idiossincrasias culturais da morte, há uma sobre a qual tenho reflectido: os epitáfios.

Um epitáfio (“epi”, posição superior + “tafos” túmulo), é uma frase escrita sobre o túmulo, que pode ser da autoria do próprio defunto – creio que não é preciso colocar a informação que é escolhida ainda em vida –, ou não.

O que é surpreendente nestas mensagens “post mortem”, é a quantidade de vezes que se recorre ao humor.

Chico Anysio (1931-2012), humorista brasileiro tem inscrito na sua lápide “E agora, vão rir de quê?”.

Louis “Studs” Terkl (1912-2008), escritor e historiador Americano:  “A curiosidade não matou este gato”.

Outro escritor, o Espanhol Enrique Poncela: “Se queres os maiores elogios, morre”.

Winston Churchill (1874-1965), político irreverente, arriscou-se a levar com o cajado divino na testa assim que chegasse ao outro mundo : “Eu estou pronto para conhecer o meu Criador. Se o meu Criador está preparado para a grande provação de me encontrar é outra questão”.

De Frank Sinatra (1915-1998), optimismo, “O melhor ainda está para vir”. E a voz de Bugs Bunny e Porky Pig, Mel Blanc (1908 – 1989), fecha a cortina com um tão bem disposto “That’s all folks”.

Do nosso grande Fernando Pessoa (1988-1935): “Fui o que não sou”. (O quê, ainda havia mais um, Fernando?)

É público que o apresentador Jô Soares quer ver a sua pedra tumular gravada com um “Enfim, magro”, mas nem sempre a vontade do defunto é concretizada. Não me estou a referir ao emagrecer de Jô, essa será, certamente que irá ficar “pele e osso”, refiro-me ao epitáfio desejado que nem sempre é respeitado pela família. Que o diga Tancredo Neves, célebre advogado e político Brasileiro, que queria a inscrição “Aqui jaz, muito a contragosto, Tancredo de Almeida neves”, mas a quem a família não  fez a vontade. Provavelmente não considerou essa mensagem politicamente correcta.

Da Internet surgem epitáfios menos conhecidos, alguns  podem nem ter sido alguma vez gravados, mas não menos bem dispostos: num cemitério em Maryland pode ler-se “Aqui jaz um ateu. Todo bem vestido e nenhum lugar para ir”, e numa imagem de uma lápide em Espanha: “Neste lugar desde 1893. Não se passa nada”. Ainda, “Esta posição está a matar-me”, “Sinto que tu também morrerás”, “Deus, nunca acreditei em ti, mas juro que estou arrependido”, “Aqui jaz a minha mulher, que Deus a receba com a mesma alegria com que lha envio”, “Game over”, “Estes dias parecem-me eternos”.

Não sei como serão as campas daqui a umas cinco ou sei dezenas de anos, altura em que tenciono finar. Provavelmente já terão um ecrã touch, ou uma projecção holográfica, e as pessoas poderão ter acesso a textos que escrevo para o Rua Direita e fotos que partilho no Facebook  (parem de enviar convites para jogos). Se assim for, ainda sem pensar muito no assunto porque espero ter mais algumas décadas para o fazer, creio que opto por um simples e modesto: “Aqui faço logout”.