As entrelinhas de Melo

por José Carreira | 2016.01.16 - 11:44

Na entrevista que Nuno Melo deu ao jornalista Vítor Gonçalves, na RTP3, esteve irreconhecível, sem chama, algo titubeante, uma sombra de si próprio. Ao dizer que teria, na manhã seguinte, algumas conversas, sendo uma das interlocutoras Assunção Cristas, percebi que não seria candidato no anúncio que faria às 12:00.

Assim foi, Melo informou que não será candidato e apresentou justificações algo frágeis e pouco convincentes. Elogiou a antiga Ministra da Agricultura e do Mar que apresentou na sede do partido a sua candidatura e afirmou que a decisão foi tomada há muito tempo, após uma “profunda reflexão” junto da família e de membros do partido. Nuno Melo desconheceria a decisão ou acreditaria na desistência de Assunção Cristas?

Nas entrelinhas podemos ler que, tendo Assunção a sua decisão tomada há algum tempo, Melo não terá conseguido os apoios condizentes com a sua popularidade, deixando o caminho livre para Cristas e os seus apoiantes. Não deixa de ser curioso que Lobo Xavier, na Quadratura do Circulo, se tenha mostrado satisfeitíssimo com a candidatura da Assunção a quem fez rasgados elogios. A voz da oposição a Portas, Filipe Anacoreta Correia, que na semana passada não excluiu a possibilidade de apresentar-se à corrida à liderança do partido no 26º Congresso, afirmou:“Assunção Cristas […] reúne boas condições para liderar o partido, pelo que importa perceber as suas ideias e em que condições quer afirmar o seu projeto para uma nova página no CDS.”

Também nas entrelinhas ficou uma “farpa” de Melo a Assunção quando considerou estar preparado para ser líder do partido porque subiu todos os degraus (“Eu fiz no CDS toda a escadaria, da base ao topo, fui candidato à assembleia de freguesia, à assembleia municipal, à assembleia da República e ao Parlamento Europeu… Comissão Política Concelhia, Comissão Política Distrital, Comissão Politica Nacional”). Nuno Melo foi mais longe: “Porque conheço o partido, porque fiz o caminho e o trilhei passo passo, sem ser propriamente pela mão de alguém da base ao topo. Porque conheço este partido profundamente (…) porque já fui avaliado nas urnas (…) ”

Cristas ganhou notoriedade na defesa do não ao aborto, foi convidada por Paulo Portas e rapidamente chegou a ministra. Agora poderá ser eleita líder, numa ascensão meteórica na estrutura do partido.

O que farão João Almeida; Cecília Meireles; Adolfo Mesquita Nunes; Pedro Mota Soares e Nuno Magalhães?

Melo considerou também que “O fim do ciclo de Paulo Portas não tem que significar que o partido se vai balcanizar e radicalizar.” O tempo dará ou não razão ao eurodeputado que, para já, não abdicou do seu presente e fez bandeira do passado. Assunção Cristas assume o presente e dá o corpo às balas para a árdua tarefa de substituir o carismático Paulo Portas trilhando o futuro do CDS PP.

Assunção Cristas garantiu que “o CDS nunca foi o partido de um homem só e não será de uma única mulher”. Num momento difícil, só os resultados nas urnas lhe garantirão que não será uma mulher só. António José Seguro que lhe conte como foi…

 

(Foto DR)