As contraelites dos pequenos poderes

por Silvia Vermelho | 2014.02.24 - 13:31

Há uma frase de alguém que me é próximo, proferida, precisamente, a propósito de partidos políticos, que me diz muito: “eu sempre soube que havia qualquer coisa de errado, só não tinha ainda o conhecimento e mundividência que me permitisse perceber exactamente o porquê”. Com efeito, esta frase traduz, na perfeição, o meu relacionamento com os partidos políticos, em termos de pensamento e em termos de relacionamento concreto e mundano. Na minha acção política na adolescência, resguardei-me sempre na “independência” interna e externamente visível dos partidos políticos e suas juventudes com quem, por via das circunstâncias, me acabei por cruzar. O meu envolvimento na formação da primeira lista candidata à Associação de Estudantes da Escola Secundária sem apoios de partidos políticos representou, pois, isso mesmo – um desafio aos pequenos poderes, uma afirmação de independência e liberdade.
Vale a pena desmistificar, aqui, que “circunstâncias” são essas que levaram e levam ao meu cruzamento com os partidos políticos e as suas juventudes, pois a palavra e o seu uso no plural poderão levar o/a leitor/a pensar que é algo mais complexo do que o que realmente é, e, a verdade, é que essas circunstâncias se resumem, apenas, à vontade de fazer algo pela comunidade. Assim que a pessoa manifesta a sua vontade de participar activamente na sua comunidade, rapidamente os pequenos poderes se organizam de forma a “dar colo” a essa participação. Fazem-no por hábito, sob a história da carochinha de contribuir para o desenvolvimento, e crescimento, e coisas acabadas em “mento”, mas o que subjaz a esta prática é a necessidade de protecção dos pequenos poderes. A única participação que é tolerável é aquela que é institucionalizada, apadrinhada, patrocinada, porque controlada. Se isto é assim em todo o país, é fácil de ver que quanto maior a comunidade, maior o grau de liberdade, quanto mais pequena a comunidade, menor o grau de liberdade, por uma mera questão de densidade populacional. É muito difícil que a nossa vontade de participação passe despercebida em território pequeno, é como se tivéssemos um cheiro específico que os cães-de-guarda dos pequenos poderes se predispõem a seguir, a assediar e a levar para o quartel-general.
Os pequenos poderes gostam de impressionar porque são, também, impressionáveis. Gostam de enfatizar os “contactos” que têm com outros pequenos poderes que julgam maiores. Gostam de impressionar com telefonemas para a “alta esfera política”, com as “representações” nos fora, nos congressos e nos seminários com keynote speakers. Deus, que aborrecimento.
Mas a verdade é que sobre os pequenos poderes, e do meu asco a este “tocar de violinos” enquanto o Titanic se afunda, já falei várias vezes, e estes são apenas o contexto de surgimento do meu objecto de reflexão neste texto, que são os pequenos poderes que se propõem a desafiar os primeiros pequenos poderes.
A cidadania neste país está cheia desses pequenos poderes ressabiados. Poderia ser uma informação arriscada se partisse de uma extrapolação infundamentada de uma pequena realidade que me foi dada a conhecer. Mas não é uma pequena parte da realidade que eu conheço, é uma realidade que é tão pequena que por isso é que eu a conheço. Somos, as mesmas pessoas, em todo o lado. De Norte a Sul do país, as pessoas que compõem a organização A também compõem a organização Z, estão presentes no fórum da organização C e encontram-se na mesa redonda da organização F. Claro que estamos mais ou menos “especializadas/os” em áreas, mas quando as áreas de intervenção cidadã são, precisamente, a da promoção da intervenção cidadã, aí é quase uma colagem das pessoas de fórum para fórum, de acção para acção.
Como é fácil de ver, eu não tenho muitos anos disto porque não tenho muitos anos no planeta Terra, mas mesmo assim há mais de dez anos que ando nestas andanças e as/os adolescentes que andavam nisto há dez anos são as/os jovens adultas/os que andam nisto agora, e as/os mais jovens são, frequentemente, irmãs/ãos ou próximas/os da geração imediatamente anterior. E pronto, das pessoas mais velhas que há dez anos andavam nisto, tirando as que, lamentavelmente, e por via da idade avançada, morreram, são também as mesmas. A participação que reclamam é a participação deles, ao invés de uma democracia mais participativa, reivindicam uma democracia representativa com eles, sendo, por isso, incapazes de contribuir para a mudança, pois não a conhecem dentro de si.
A proliferação de pequenos ditadores nas organizações juvenis, associações ou juventudes partidárias, é uma cópia fiel do comportamento dos pequenos ditadores nas organizações que, não se afirmando como “sénior”, são, sem surpresas, organizações dominadas por pessoas com os seus cinquenta anos. Vamos lá a ver, há a participação “jovem” e depois há a “participação”, mas esta última é tão limitada em termos etários (e em termos de sexo! e classe! E etnia! e etc.!) que merecia, igualmente, a classificação etária ao lado. Mas esta “participação” é tão pobre em diversidade como as próprias organizações. Imita o modus operandi de quem está presente na esfera pública, reproduzindo o deslumbramento pelos pequenos poderes e seus efeitos, as suas atitudes aglutinadoras e castradoras, o seu autoritarismo disfarçado de “ordem e progresso” e, principalmente, está, também, o apego.
O apego ao mundo como o conhecemos é, frequentemente, mais forte que o nosso sentido de auto-preservação, entrando na lógica maquiavélica de que os fins justificam os meios, de que há “um bem maior” que justifica a aniquilação da Humanidade em nós – que é a nossa liberdade. A liberdade é o que nos marca enquanto seres humanos, somos tão livres que nos arrogámos a desafiar a nossa pertença ao planeta Terra, propalando-se o desvario na acção humana e consequente destruição do planeta. Libertámo-nos da escuridão, ao criar a luz artificial, e no entanto somos incapazes de compreender que abdicar da nossa liberdade só pode comprometer a nossa Humanidade, e que tolerar a agressão à nossa liberdade só compromete esses tais teóricos “fins últimos”. Não pode haver hierarquização da justiça nem da liberdade, elas são e existem em absoluto, tolerar a “pequena” injustiça e a aparentemente insignificante agressão à liberdade é ver o nosso espírito corrompido, imunizando-nos de tal forma que já não as saberemos reconhecer em modo “grande”. Uma pessoa que tolere a agressão à sua liberdade no dia-a-dia tolerará um regime autoritário porque não saberá reconhecer o autoritarismo, estando presa nas suas próprias crenças.
Fiel à missão que me impus, de contribuir para o empoderamento individual dos membros das comunidades que somos e, consequentemente, para o empoderamento colectivo, canalizei alguma da minha atenção a um movimento cívico em particular, cuja apresentação me foi feita pela intenção de fundar um partido para poder levar, ao Parlamento, de forma consequente, propostas elaboradas com base num sistema interno de Democracia Directa. O que vi foi que daqui até à sua efectivação é uma distância tão grande quanto o apego que falei em cima, e que poucas/os de nós sabem ou querem reconhecer. Esse apego é a causa da reprodução fiel que, dentro desse protopartido, como nos outros, impede que se reconheça o caminho da mudança, reproduzindo modelos de opressão inaceitáveis para quem tem espinha vertebral. São assim as nossas contraelites, igualmente pequenas, em tamanho e em sabedoria, o outro lado da moeda das nossas elites. Uma ilusão óptica nos pratos da balança, pois na realidade é sempre o mesmo lado – o dos pequenos poderes – que saem reforçados.
Recordo-me sempre dos ensinamentos do Professor José Adelino Maltez, recordando Agostinho da Silva, de que partido significa parte, onde tem a sua raiz etimológica, e a verdade é que parte é a dita parcela do conjunto maior que luta com as outras parcelas pelo Poder. E, por isso, para todas as pessoas que se propõem a participar, recordemo-nos que participar não se extingue no ser parte, mas encontra a sua plenitude no tomar parte. Ousemos, como em “ouremos”.

Silvia Vermelho é politóloga, empresária e activista. Nasceu em Mangualde, onde decidiu regressar em 2012, após 7 anos em Lisboa, para onde entretanto havia ido estudar. Dedica a sua atenção nos âmbitos profissional e associativo ao Poder Local, à Igualdade de Oportunidades e à Cidadania, Democracia Participativo, empoderamento e sociedade civil.

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