As coisas que acontecem no Museu Grão Vasco…

por PN | 2017.03.05 - 13:55

 

 

É verdade. Até as pinturas com mais de 4 séculos se revelam e falam com o público. Como é isso possível?

É elementar… juntando a dinâmica de instituições e o saber das pessoas que as representam.

Assim, Paula Cardoso, directora do MGV, convidou Virgínia Gomes, conservadora do Museu Machado de Castro e Ana Brito, conservadora restauradora da PortoRestauro e, centrados numa obra pictórica a óleo sobre madeira, tirada de um conjunto de 5 cenas do Nascimento e outras tantas da Paixão de Cristo, atribuídas ao trabalho a quatro mãos dos pintores maneiristas Simão Rodrigues e Domingos Vieira Serrão, fruto de uma encomenda feita pelo bispo de Coimbra (1585/1615) D.  Afonso de Castelo Branco para a sacristia da Sé de Coimbra, seleccionaram e trouxeram uma dessas 10 peças “Cristo no horto” e… a conversa fluiu.

 

Preciso é dizer que esta acção se enquadra numa belíssima exposição temporária que estará patente ao público até 19 de Março, designada “Além de Grão Vasco”, que o leitor, esteta como decerto é, não deve perder de modo algum, tal a qualidade e a quantidade de obras propostas à observação e ao seu desfrute.

Paula apresentou e saudou. Virgínia e Ana explicaram e geraram o diálogo numa interacção muito intimista com o público, com intervenções curiosas e eruditas como as de Alberto Correia, ex-director daquela casa, que tão bem conhece.

Desde o trabalho estrutural do marceneiro e do carpinteiro que escolheram as tábuas, à sua colocação horizontal ou vertical, até à sua junção e emolduramento, até às pigmentações cromáticas e exercícios sincrónicos de intervenção humana, tudo serviu para nos acercarmos da obra e, a nossos olhos ajudados por quem sabe, começarmos a leitura dessa “narrativa” deslumbrante que, conjectura após conjectura, nos permite confabular, numa viagem temporal de séculos, as possíveis e plausíveis mensagens transmitidas pelos pintores, numa só tábua ou, como num puzzle, integrada no conjunto das dez a que pertence, lendo na horizontalidade e/ou na verticalidade, por encomenda de um bispo “iluminado”, esclarecido, reformista, que tinha uma intenção: a de as colocar em local onde todos os dias, várias vezes ao dia, estivessem debaixo do olhar de todos os padres da Sé de Coimbra, no sítio que eles mais frequentavam – a sacristia – por forma a gerar-lhes uma reflexão e consequente humildade dela decorrente.

Tivemos oportunidade de vislumbrar as sofisticadíssimas técnicas de restauro hoje utilizadas, com toda a panóplia de métodos científicos utilizados e, essencialmente, perceber que na longa diacronia daquela obra, muitas agressões ambientais foram sucedendo e sincronias houve devastadoras, como aquelas em que, mão humana irada, perfurou os rostos dos carrascos, movida pela vingativa “fé”, ou arrasadora flagelação e/ou vandalismo.

Um momento cheio de luz numa tarde soturna e cinzenta de um Março chuvoso e frio.

Parabéns à directora do MGV, Paula Cardoso, parabéns a Virgínia Gomes e Ana Brito que nos souberam abrir sendas novas na interpretação/descodificação de um “texto”, um só capítulo infindável, de uma obra de dez “capítulos” sublimes.

E não se esqueça, estimado leitor, visite a Exposição “Além de Grão Vasco”, pois dará seu tempo por muito bem empregado.