As castanhas desta geração

por Rufino Fino Filho | 2013.12.01 - 18:47

Castanha era aquele fruto que os putos roubavam à Casa da Ínsua quando fugiam aos velhotes, no Verão, e se escapavam para umas banhocas refrescantes no Poço dos Cavalinhos, na Senhora de Lurdes. Na volta, eram as cerejas e os bagos pintores, se já os houvesse. Moscatél, de preferência!

Castanha era o que os esperava à chegada a casa: duas lambadas bem dadas no focinho, que limpavam o nariz do ranho ganho na água fria do Côja.

Castanha era fugir da GNR quando se jogava à bola nas ruas da vila estafando as botas que o Menino Jesus trouxera no Natal ou esfolando os dedos dos pés com topadas na calçada.

Castanha era começar a trabalha aos 10, 11 anos, como aprendiz e levar nas trombas umas solhas dos mestres, quando saía asneira no ofício.

Castanha era também o Serviço Militar, com a quarta classe mal feita, que oferecia viagens gratuitas e possibilidades de emigrar para uma das províncias ultramarinas, que então enfrentavam uma guerra de guerrilha extenuante e nunca definitivamente vencida.

Castanha era a entrada na vida activa: maus empregos, muito trabalho e mal pago.

Castanha era o caminho para dar o salto em direcção a melhores vencimentos e condições de trabalho lá para a França e Alemanha.

Castanha vinha também com o casamento: filhos, novos encargos e despesas não previstas.

Castanha era a puta da vida, por aí fora, até se rebentar e ir desta para melhor sem saber como.

A Castanha, hoje, é mais doce. Mas é Castanha, na mesma.

Já ninguém as rouba a caminho da Senhora de Lurdes porque: não há castanheiros, porque não vão a pé, porque têm medo da água fria, porque não sabem caminhar descalços na areia grossa das margens, porque dizem que a água do rio está suja, porque já têm piscina municipal com aguinha quente, porque as mamãs não deixam, por isto e por aquilo…por isto e por aquilo… Aliás, fruta nas árvores, já ninguém rouba, porque é uma canseira e não distinguem uma maçã do bravo duma maçã reineta.

À bola já ninguém joga pela rua ou no Terreiro da Misericórdia. Sempre há o campo da Cerca e o Relvado da Sant’Ana, com escolinhas e tudo, com chuteiras á Ronaldo para não estragar o sapatinho fino ou o ténis da Adidas.

Já ninguém leva uma castanhinha na face rosada, porque bater nos meninos “não se faz”. Hoje confunde-se a má educação com “os nervos do menino” e assopra-se para o lado deixando que a Escola substitua os “paizinhos”.

Salvou-se a juventude do Serviço Militar Obrigatório e perderam-se as Castanhas africanas.

Mas há Castanhas eternas.

A França, a Alemanha, Brasil e Angola continuam a ser a América da Europa: emigra-se, como há muitos anos não se via.

Continuam os empregos mal pagos que nos obrigam a comer as Castanhas que o Diabo amassou.

Castanha continua a ser a puta da vida, por aí fora, até se rebentar e ir desta para melhor sem se saber como.

Salvam-se as Castanhas d’ovos!