Aquilino e Eu

por Maria Sobral | 2016.09.13 - 20:00

 

Desde que aprendi a ler que ousava praticar com os livros que se amontoavam lá por casa, muitos foram lidos em demasiada tenra idade para a profundidade literária que exigem, mas aumentaram-me o vocabulário e impediam-me de dar erros no ditado da escola. Aqueles que por uma ou outra razão me cativaram mais, acabaram por ser revisitados anos mais tarde e alguns ainda o continuam a ser, como foram “Os Três Mosqueteiros”, “As Viagens de Marco Polo”, “As Minas de Salomão”, “Alice no País das Maravilhas”, “O Drácula de Bram Stoker”, “O Deus das Moscas”, entre muitos outros, menos ou mais conhecidos. Também tentei e tento o “Guerra e Paz”, mas mesmo achando que a minha memória até nem é má, raramente consigo chegar à 5ª página sem me esquecer de pelo menos uma das inúmeras personagens apresentadas em tão poucas linhas…

Pela casa, por lá havia e há, uma prateleira mais lustrosa, com livros de capa dura e rebordados a dourado, com cheiro de novo e nunca folheados, com a chancela do Círculo de Leitores. Na minha cabeça pareciam intocáveis, até porque não sou a melhor pessoa a quem se empreste livros, dobro folhas, ponho gotas de água e nódoas de gordura, entre outros acidentes e agruras, não sou a melhor “guarda-livros”…gosto de lhes dar vida.

Ousei abri-los, ousei iniciar-lhes a leitura, mas nunca passei da primeira página, pois a minha mãe notaria no imediato tamanha ousadia e indiscrição. Na sua lombada castanha e dourada ostentavam o nome do autor, que de todo me era conhecido, de nome, de boca, de histórias, de lembranças, de referências…agora recordo lucidamente que sempre se falou lá na terra do “nosso Aquilino”. Quanto mais não fosse, meu avô era Aquilino e seu pai idem, também por referência ao mestre e portanto sempre lembrado.

E Aquilino, na palavra escrita, lá se me foi ficando na total ignorância. Quando acabei o 9º ano em Sernancelhe, rumei a Coimbra para fazer o ensino secundário, e foi em Coimbra que li pela primeira vez e de supetão “O Malhadinhas”, obra obrigatória na Disciplina de Português, mas satisfeita que fiquei, li logo de enfiada a “Mina de Diamantes”, já que o meu livro e à semelhança de quase todos os obrigatórios na escola, não era comprado novo, era um de lá de casa, cheio de anotações das tias, do pai ou da mãe, versões antiquíssimas a cheirar a mofo e com páginas coladas com fita-cola…no caso deste, lá se encontrou uma primeira edição, muito velhinha na casa grande da (Bis) Avó Etelvina. Mas não me queixo, o meu “Os Lusíadas” completamente anotado, sublinhado, riscado, a três caligrafias diferentes, nunca me deixou ficar mal em nenhum teste ou exame.

Ir estudar para Coimbra não foi fácil, e o mais penoso foi os novos colegas estarem sempre a apontar-me o sotaque, a utilização do “vós” e a respetiva conjugação verbal para a ação pretendida, e as diferenças de vocabulário para nomear ou descrever algo. Os meus nagalhos eram atacadores, os meus miolos de pão eram migalhas, o meu sombreiro um guarda-chuva, a minha sertã uma frigideira, e por aí adiante. Nesta fase pensava muito se realmente tinha lógica deixar de falar como falo só para me sentir mais integrada, já que nada do que eu dizia estava efetivamente errado linguisticamente, antes pelo contrário. O sotaque fui amaciando pela prática e convivência, não tanto por opção, o “vós” nunca larguei, nem largo, acho a forma mais bonita de verbalizar no plural, porventura bem mais difícil do que o agora vulgar “vocês”, mas não para uma filha das Terras do Demo que sempre o ouviu, desde as mais tenras brincadeiras no terreiro do Convento – “Vós quereis jogar à bola, ou às escondidas?” – “Já ides para casa?”, “Vós fostes à escola?”.

Mas foi o próprio Malhadinhas que me trouxe a paz que buscava entre os meus colegas ainda apenas gozões e não bullys. Bastou-me começar a ler e a interpretar os excertos nas aulas, para perceber (eu e a professora) que nenhum dos restantes membros da turma entendia metade do que estava escrito…pelo contrário, eu percebia tudo; o que significavam os termos estranhos, que raio queria o homem dizer com certas descrições ou pensamentos, ou até o enquadramento geomorfológico, como entender porque lhes chamou Terras do Demo? Para mim era óbvio! Passei rapidamente da rapariga do sotaque à “vijeu”, para a potencial melhor aluna no teste sobre Aquilino….e isto numa turma onde metade aspirava a Medicina, Dentária, Psicologia e etc., a única solução foi baixarem a guarda e tirarem apontamentos por mim…o processo levou-os a conhecerem-me, a integrarem-me e o resultado são belas amizades que ainda hoje perduram.

Eu deixei de ser de Viseu, para passar a ser do Carregal, terra onde nasceu Aquilino Ribeiro, porque lá na cidade o nome do mestre não era só das histórias, e das lembranças e das referências, era muitas outras coisas, mas era principalmente “um enorme escritor que devia ter recebido o nobel”, e isso é uma pertença e uma herança de muito orgulho.

Escusado será dizer que tudo isto aliado ao facto de partilhar com ele a minha terra berço, criou um certo laço afetivo que vai sendo alimentado ao longo das leituras que lhe vou dedicando, agora mais esparsas no tempo, que este es sempre fugit.

Após o Malhadinhas, assuntei acerca do livro onde Aquilino referia o Carregal, “Cinco Réis de Gente”, li-o na altura, agora, passados mais de 20 anos voltarei a lê-lo, numa edição novinha em folha, que será lançada na nossa terra natal no próximo dia 17 de setembro, numa reedição levada a cabo pela sua editora de sempre, a Bertrand, e pela Câmara Municipal de Sernancelhe. Hoje, 13 de setembro comemoram-se já 131 anos do seu nascimento, mas tenho a certeza que a sua obra, o seu reconhecimento, a sua leitura, continuará indefinidamente ao longo dos tempos a encantar alguém, pois assim se fazem os mestres e as lendas.

Geóloga por graduação e afeição telúrica natural. Formadora na Escola Profissional de Sernancelhe. Técnica dinamizadora do Centro Interpretativo Aldeia da Faia. Promotora de consciência ambiental e cultural.

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