Aquilino e a Caça – Prefácio a uma Montaria

por PN | 2017.02.18 - 21:15

Prefácio a uma Montaria, Aldeia de Sto. Estevão, 18/02/2017

 

 

Se Aquilino tivesse nascido a 20 de Setembro de 1885 ter-se-ia chamado Eustácio, o padroeiro dos Caçadores.

Porém, nado que foi a 13 desse mês, recebeu de seu pai, o Pe. Joaquim Francisco Ribeiro e de sua mãe, Mariana do Rosário Gomes, o nome do santo do calendário litúrgico do dia: Aquilino, que na origem tem “aquila”, que nos deu Águia, a rainha de todos os ares, planaltos da Nave e Lapa incluídos.

Aquilino nunca esqueceu o Carregal onde nasceu, Alhais onde foi baptizado, a Lapa onde estudou, Soutosa onde passou tantos dos seus dias. Não esqueceu também as suas gentes, costumes, fauna, flora e sua liberdade.

Caçador e pescador de clavina ou arcabuz apurados e caniços verguios, mais que tudo era às lebres e perdizes que dedicava muitos dos seus dias de lazer, em Soutosa, com seus bichos, sua pardalada, suas tílias e seus podengos.

Companheiros foram muitos: o Silvério Taranta que lhe ensinou em criança a deitar os ferros aos coelhos e a armar à lontra que comia as trutas dos açudes; o José Bernardo, de alcunha o Caifaz, caçador de fama e sapateiro remendão, que afirmava a quem o queria ouvir “Searas gradas, perdizes bastas”;  o Abade de Pera-e-Peva, estafador de perdizes e engrolador de missas; o Joaquim Varandas, o Chico Labaça e o Leonardo Chorinca na histórica batida aos coelhos, em dia de nevada sem igual; o José Natário, calçado de tamancos e equipado de espingarda reiuna, cujo tiro fazia roda como o jacto de água do borrifador; o Gil Sapateiro, atirador de cara e loquaz por índole; o Quim da Bezerra que contava petas enormes, como a do seu avô que andava à caça e vê vir gorda lebre sem ter grão de chumbo que lhe valesse… O que fez ele? Leva os dedos à boca e arranca um dente chumbado que lhe andava a abanar. Carregou com ele a espingarda e, pumba, atravessou a lebre como se fosse um zagalote; o Alonso Vendeiro, dono do podengo Vaivém, atravessado de navarro, que andava de cá para lá, da fome para a vontade de comer, do pontapé para a trancada…

E bem a propósito, do braço direito do caçador, o fiel lebréu dizia o ditado, acerca dos pelos debaixo do queixo: “Quando no teu cão o pelo é só, vale um pirum; dois, vale uns bois; com três ou mais de três, não o vendas nem o dês…”

E com este texto vos deixo, que os javalis anseiam por vós…

Uma lebre, surpreendida no covil, olhos castanhos oblíquos tão abertos que, parecendo velas, dorme, bigodes dos antigos guardas municipais, orelhas deitadas para o lombo, recalcado sobre si, samarra de pelúcia aleonada, com salpicos negros, é uma linda coisa da madre natura. Fuzilá-la ali é um crime contra a beleza. Um estalido com a língua e ei-la tornada em péla saltante. O caçador que se preza segue-a com a mira e só dispara à altura regulamentar. Um grão na nuca ou na região do coração, calculados segundo os dados da balística cinegética, será a sorte gloriosa. Mandar-lhe chumbada ao traseiro, ao sac à plomb, é de pexotes e as mais das vezes para vê-la ir. Uma lebre adulta dá carne para uma malhada.”

Épicas linhas destas povoam com memórias façanhudas as páginas do Mestre Aquilino. O melhor tributo que se lhe pode fazer é lê-las com redobrada porfia e reviver nelas os tempos idos, nas nossas aldeias, com nossas gentes e as tradições que bem retemos na memória.

Por sorte tamanha dele, Aquilino que podia ter sido Eustácio, vos acompanhe nesta montaria ao javali, esse avô directo dos nossos recos de hoje, que tanto  e tão gastronomicamente nos deliciam.