AQUILINO – “CINCO RÉIS DE GENTE” – Recortes de Infância

por Alberto Correia | 2016.03.20 - 12:29

 

 

 

5 – O PAI – A outra face do retrato

Meu pai, com certo desapego pelas realidades da vida, salvo aquelas que pendem da alçada imediata do dever, votava-me um carinho que me tornava mimalho de todo, se não choço.

Cinco Réis de Gente, p. 73

– Tem que se fazer homem! – sentenciava meu pai.

                                              

 

 

Amadeu, nome de guerra!

Aquilino quis chamar-se assim no seu romance e inventou para Amadeu a história de um pai de verdade e fantasia.

Aquilino não quis contar muito acerca desse pai efabulado que se levanta com a alva, seja Inverno, seja Verão, quando ele ainda dorme no embalo do chilreio dos pardais já acordados no cipreste da horta ali ao pé.

Ele sabe que o pai labuta lá por longe, âncora da casa onde o pão é farto sobre a mesa. Mas quando ele regressa e se acomoda na quentura do escano ou descansa nas escadas que dão para o patim, sabe bem sentar-se ali ao lado, ficar a olhar e sentir que o mundo é um lugar bom.

Às vezes o pai mandava aparelhar a égua Inácia e os dois seguiam de carreira para o Codessal, esse chão plantado de horta, de tiras de linho, de um souto velho de castanheiros onde, se era Março, esse tempo da terra florir, depressa lhe construía uma gaitinha. E quando se perdia nos valados na vadia busca de um ninho, quando trepava um muro alto para colher amoras ou mostajos, quando armava com a fisga, a caçador, quando a mãe se assustava com a ausência do menino, o pai achava natural e logo a sossegava:

Anda a descobrir mundo!…

O que o filho estava era a crescer.