AQUILINO – “CINCO RÉIS DE GENTE” – Recortes de Infância

por Alberto Correia | 2016.03.08 - 12:30

 

2 – CARREGAL – Os trabalhos e os dias

carregal igreja

 

SERNANCELHE. Carregal – Igreja matriz.

 

Eu nasci perto do Távora, no concelho de Sernancelhe, numa aldeiazita pacata, pobre.

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Era uma terra de castanheiros. Eu nasci no meio dos castanheiros, na zona dos castanheiros. Sabe que o castanheiro é uma árvore bonita, uma árvore da força e da beleza.  

Aquilino Ribeiro, Entrevista a Igrejas Caeiro, 1958.

 

Aquilino chamou-lhe Lomba, à aldeia, à aldeia do seu tempo de menino. Que era nome efabulado, que tudo por ali, quase tudo, se contava em voz de lenda – Era uma vez!…

Mas o nome da aldeia, de verdade, era Carregal.

O casario corria, lado a lado, nas ruas estreitinhas, aconchegado como as aves em um ninho.

Havia a fonte onde os cântaros mergulhavam, para encher, a capela de Santo Amaro e a igreja com um adro pequenino.

Ao redor ficavam hortas, renques de videiras, chãos de milharais, courelas de centeio e soutos de velhos castanheiros que eram para a aldeia como coroa de um rei. Mais além a serra brava, urze, giesta, rosmaninho, pinheiral e a crista dela desenhando a fronteira.

O sol e a lua governavam a noite e o dia, o sono e o trabalho, o nascer dos anhos e dos filhos, o rebentar da água e das flores, as desfolhadas, o cair das castanhas, o sino a tocar Ave Marias.

Nos caminhos passavam romeiros para a Lapa ou Santiago, pobres de pedir, caldeireiros, ciganos, comediantes e os Malhadinhas. E os que embarcavam para a França ou o Brasil.