AQUILINO – “CINCO RÉIS DE GENTE”

por Alberto Correia | 2016.03.26 - 11:08

 

7 – A TIA CUSTÓDIA – A INVENÇÃO DE UMA FADA

 

 

Vi minha tia Custódia acocorada na esteira, de roca à cinta a espiar a sua estriga. Reparando-lhe para o rosto pareceu-me mais do que nunca pungido pela picada das bexigas e atormentado como a criva de um regador.

Cinco Réis de Gente, p. 156

 

Coitadinha, fora bonita e requestada e agora só servia para me contar histórias da carochinha e chorar.

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Que minha tia era feia?

Não, no mundo todo não existia mulher mais bonita que a tia Custódia.

                                                                                 Cinco Réis de Gente, p. 21

 

A tia Custódia era tecedeira. Mas também fiava linho. E bordava. Foi ela quem bordou, a ponto de cruz, a letra “A” nas peças de enxoval que Aquilino levou para o Colégio da Lapa, no baú. Aprendeu quando era rapariga no Recolhimento, uma espécie de convento que havia ali perto, em Freixinho.

Teve pouca sorte a tia Custódia. Uma doença ruim chamada pelo povo, de ”bexigas” correu as aldeias todas, na redondeza, saltou as grades do Recolhimento e morreram muitas raparigas.

Custódia, que era linda de morrer, como as fadas, não morreu. Mas ficou com a face desfigurada e não quis casar assim com o namorado.

Voltou a Lomba, a sua terra de nome efabulado, o Carregal. E passou dias a fio a chorar.

Teve sorte, Aquilino. Que a doença da tia não tolheu a sua voz. E era ela quem cantava ao seu menino as canções de adormecer.

Aprendeu com ela as orações, o Padre-nosso pequenino, as lengas-lengas que sabia de cor de tantas vezes as ouvir e as histórias de feiticeiras que metiam medo nas encruzilhadas.

A tia Custódia também ajudava a sua mãe. Às vezes iam ambas visitá-lo ao Colégio.

 

FOTO: José Alfredo