AQUILINO – “CINCO RÉIS DE GENTE”

por Alberto Correia | 2016.03.24 - 08:47

 

6 – QUINZINHO – O IRMÃO QUE VEIO NO BICO DA CEGONHA

 

 

 

– É o Quinzinho, Amadeu!  É o mano Quinzinho!

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Deixando meus pais enlevados no fenómeno, atravessei a cozinha, que dava serventia para o quintal, seguido do Barzabú.

– Não quero cá o mano, nem meio mano. Não quero!

– Não queres o mano…?! – exclamou com voz ralhada, mas apaparicadora, atrás de mim, a boa tia Custódia. – Há lá nada mais bonito que um maninho!? Brincas com ele… vais com ele à escola… ides juntos armar aos pássaros…

Cinco Réis de Gente, p.11-12

 

 

Na distância tudo tem cor de romance.

Do irmão pequenino que a cegonha trouxe de Paris quando ele ia já nos quatro anos evoca o dia em que a ama que o amamentara o confia à família, e ele olha, estranho, o novelozinho do irmão de face mimosa a gatinhar sobre a manta de farrapos.

– Não quero cá o mano, nem meio mano. Não quero.

Amadeu, nome efabulado de Aquilino, recordará da sua infância, desse suave tempo em que era um “cinco réis de gente”, o demorado crescimento do Quinzinho, nome que evocará o irmãozito Melchior que lhe herda os brinquedos e com ele aprenderá os primeiros saberes.

Aquilino tomará largos caminhos, as sete-partidas dos aventureiros antigos, episódicos retornos a um chão de terra-mãe, seio maternal que sempre foi para ele encosto e aconchego.

O irmão permanece na aldeia. Nas “Terras do Demo” resistiu ao sopro do vento, à torreira do sol, lavrou terras, foi homem de sete-ofícios e à data em que morreu ainda não tinha passado, na aldeia onde então morava, a Soutosa, el-rei a caçar ou os apóstolos da igualdade em propaganda, como escreveu, era ele já um homem, Aquilino, seu irmão.

Os dois tiveram uma irmã. Chamava-se Maria. Morreu pequenina. As tias vestiram-na de branco, chamaram-lhe anjinho e disseram aos irmãos que a menina tinha ido para o céu.

 

Foto: José Alfredo