Aquele natal de 1988

por Ana Beja | 2015.12.07 - 09:24

 

 

Há uma data que me ficou para sempre na memória. O dia 24 de dezembro de 1988. Tinha 11 anos. Recebi livros, um casaco e um jogo chamado “Mikado”. Foi a prenda que mais gostei. Quem me ofereceu esse jogo foi a minha tia Xana. Competia com um casaco e com aquilo que mais gostava de receber. Livros. Mas curiosamente foi aquela caixinha que me cativou a alma. Talvez me tenha cativado pela sua simplicidade. Pela sua forma descomplicada de jogar e pelo prazer de o partilhar com outras pessoas. Tal e qual como era o Natal nesse tempo. Simples. Sem grandes prendas e faustosos embrulhos. Sem o consumismo que atualmente o assola.

Lembro-me da lista que me pediam para fazer. Não a lista de prendas, mas sim a lista de atitudes que tinha de melhorar no ano seguinte. Faziam-me pensar nas parvoíces que tinha feito durante o ano e escrevia num papel o que tinha de melhorar. Mandavam-me escolher peças de roupa que me estivessem pequenas e brinquedos. Metiam-se em caixotes. E davam-se a quem tinha pouco e precisava de ter também um feliz Natal. Escrevia uma carta ao Pai Natal e colocava na caixa do correio. Em resposta à minha carta, recebia sempre um puzzle de cartão.

Cortávamos o pinheiro e segurava-se dentro de caixote de latão, com tijolos dos lados, que depois se disfarçavam com papel de embrulho. Fazíamos o presépio com musgo apanhado na mata, bolas de vários tamanhos e a árvore cheia de fitas coloridas. Luzinhas, só mais tarde. O presépio era enorme. Até tinha pastor e ovelhas brancas.

Uma semana antes começávamos os preparativos. Carregava-se a lenha para junto da lareira. Íamos às pinhas. Faziam-se fritas, sonhos, partiam-se nozes, avelãs e pinhões. Tiravam-se dos potes os figos secos. Em alguidares batia-se a massa para os bolos e biscoitos de azeite. Provavam-se os licores caseiros. Punha-se o bacalhau de molho. Apanhavam-se as melhores couves do quintal, que depois de coziam com bicarbonato de sódio para ficarem mais verdinhas. A mesa de Natal era robusta. Com louça de Sacavém e terrinas a deitar fumo. Não havia peru no forno nem arroz de polvo no dia seguinte. Havia “roupa velha” e migas de broa. No fim da refeição comiam-se os frutos secos e os pudins de leite. Depois da meia-noite, abriam-se os presentes e bebia-se chocolate quente ou chá de cidreira.

Já passaram alguns anos e ainda tenho na memória os cheiros e as cores desse Natal. Desses Natais. Onde os sonhos se dividiam e se distribuíam mais sorrisos do que prendas. Onde a magia acontecia só pelo simples facto de estarmos todos juntos. E onde uma simples caixinha, com um singelo “Mikado” lá dentro, me fez perceber até hoje, que é nas pequenas coisas que está verdadeira essência do Natal!