ANTES QUE ME DÊ UMA VENETA…

por Cílio Correia | 2017.02.05 - 09:25

 

Estava o Zé d’Almeida encostado á ombreira da portada que dava para as escadas de acesso à porta da sua casa a fazer um dos seus cigarros de mortalha, ali para o fundo do povo, em frente às escadas do Sr. Vicente e da porta da Ti Maria Zé, quando foi abordado por um estranho, bem parecido e afiambrado, a pedir lume.

O Zé d’Almeida achou-se perante um comparsa e vá de sacar do isqueiro de pedra e torcida e dar à pederneira, enquanto ele sacava dum português suave. E ali ficaram os dois a conversar sobre quem era e quem não era até que o estranho se apresentou, tirando do bolso um cartão de fiscal e vá de pedir a licença de isqueiro. O Zé d’Almeida, irritadiço por natureza, ripostou um indignado desabafo:

– Mas qual licença, qual carapuça?!…

Já ouvira falar disso, mas nunca pensou ver-se diante dum fiscal de isqueiros, particularmente, da sua “pederneira”. Tinha-a comprado numa tasca, numa das idas até terras alentejanas para fazer uma temporada, dois anos atrás. Nem sequer sabia ser preciso licença para dar à roda para incandescer a torcida!…

Mas o “fresquinho”, qual cão enraivecido, filou-o e não mais o largou:

– Mostre a licença de isqueiro!…

– Ó homem, as caixas de fósforos de cera não prestam, amarrotam-se e humedecem no bolso, gasta-se a lixa, vai-se a cabeça dos fósforos e o raio que o parta…

– Então vou ter que lhe passar uma multa! – imperturbável, o fiscal.

– Uma multa por acender o seu cigarro?!… Essa é muito boa!…

– Só cumpro a minha função. – respondeu.

O Zé d’Almeida não era para quezílias e ameaçado com tribunal, sítio do qual queria distância, ponderou as chatices e achou melhor pagar, sem deixar de dizer ao “marmanjo” para dar de frosques porque lhe podia passar um vento pelas ventas e assentar-lhe duas lamboiradas…, acabando por condescender:

– Passe lá o papel e desapareça antes que me dê uma veneta!…