Ano Novo…Tarifário Novo!

por José Carreira | 2013.12.27 - 23:18

 

O preço da energia elétrica vai aumentar 2,8% no primeiro trimestre de 2014, um valor
aproximadamente três vezes superior à inflação. Um bem essencial está a tornar-se um produto de luxo, inacessível a muitas famílias portuguesas. Esta realidade também tem vindo a ser uma preocupação crescente na vizinha Espanha. Nuestro hermano, o prestigiado escritor, Juan José Millás, considera que “A eletricidade está a fazer o caminho para converter-se em caviar” (em janeiro subirá 11%). Ele, tal como eu, e creio que muitos portugueses, não entende a verborreia verbal: “défice tarifário” (?).
O recibo da luz está a transformar-se num pesadelo para muitas famílias que sofrem da já designada “pobreza energética”. Obviamente, o recibo da luz não regularizado origina corte de eletricidade, frio, escuridão, desconforto, desumanização do lar…
A situação para o consumidor está a tornar-se insustentável. Notícias recentes deram-nos conta de vários cortes efetuados, por não pagamento ou ligações ilegais, nos bairros sociais do Porto. Uma realidade que afecta também a classe média que tenta, enquanto pode, esconder as suas dificuldades. A pobreza envergonhada tem vindo a fazer o seu caminho e afeta milhares de pessoas. A pobreza energética tem atingido níveis de tal forma gravosos que, na Catalunha, o governo regional aprovou um decreto que proíbe as empresas de eletricidade, gás e água de interromperem o abastecimento a famílias pobres, que comprovem a sua vulnerabilidade económica, por falta de pagamento, entre os meses de novembro e março.
A situação tende a agravar-se em função do triângulo letal: enquistamento da crise, degradação contínua da economia familiar e aumento dos recibos. Esta medida não resolve o problema energético, mas poderá servir de paliativo a uma situação de grande vulnerabilidade das famílias que se arriscam a ficar sem aquecimento, sem luz e sem possibilidade de cozinhar a alimentação do dia a dia. Algo que deve, na minha opinião, ser equacionado em Portugal porque “há mais pessoas a ficar sem serviços básicos, porque não conseguem pagar. E, sobretudo, mais pessoas a pedir para renegociar dívidas. Na EDP os acordos subiram 25% nos últimos meses.” (Público, 24/12)
A privatização da EDP, agora comandada pelos chineses da Three Gorges, e a liberalização do mercado não transformou a fatura num made in china, das primeiras lojas chinesas. Muito pelo contrário, parece estar a tornar-se num made in china de uma poderosa empresa deslocalizada que vende um produto de alta qualidade, escasso, sem concorrência à altura e com um regulador incapaz de controlar o que quer que seja. Cada kWh parece banhado a ouro. Já temos o “ouro negro” em função do elevado preço do barril de petróleo, agora passaremos a ter o “ouro electrum”.
Como diria um dos “senadores tuga”, Eduardo Catroga, talvez andemos a “discutir pentelhos“, quando deveríamos discutir milhões de euros (a EDP tem vindo a acumular lucros recorde, mais de 8000 milhões de euros nos últimos sete anos).
Os acordos feitos pelo Estado português terão efeitos futuros algo incertos, mas os que se fazem sentir, hoje, são bem evidentes: para muitos dívidas impagáveis de “tostões” e para poucos lucros pornográficos de “milhões” .
Portugal perde em toda a linha para o gigante chinês. Uma civilização secular está a sucumbir ao yuan de uma civilização milenar.
Não nos esqueçamos da descrição feita por Frei Gaspar da Cruz, na monografia “Tratado das coisas da China“, aquando da época dos nossos “gloriosos descobrimentos”.
Aqui fica um pequeno período que descreve a putativa superioridade chinesa: “em multidão de gente, em grandeza de reino, em excelência de polícia e governo, e em abundância de possessões e riquezas”.