Amputação

por Renata Aguiar | 2015.11.02 - 16:40

 

Foi no dia 3 de Julho de 2009 que me fiz médica. Comecei a trabalhar como tal no dia 4 de Janeiro de 2010 e, a 25 de Novembro do mesmo ano, fiz a escolha que há-de ser para o resto da vida: a Reumatologia.

Todos me dizem que os anos nos modificam. Que nos tornamos imunes a algumas coisas que, inicialmente, nos impressionam. Que erguemos os nossos muros, as nossas defesas, que aprendemos a manter alheio o sofrimento. Estou certa de que ninguém quer dizer, com isto, que nos tornamos frios e incapazes de sermos empáticos; apenas que aprendemos a resguardar-nos.

Passados quase seis anos, não vi esta mudança acontecer.

Uma das razões pelas quais escolhi ser reumatologista é porque, felizmente, os nossos doentes raramente morrem nas nossas mãos, raramente sucumbem directamente às doenças pelas quais lhes chamamos «nossos». Raramente se desligam do mundo diante dos nossos olhos, a atestar a nossa incapacidade para os mantermos connosco por mais tempo. E contudo, quando a excepção confirma essa regra, é verdadeiramente dramático: quase invariavelmente, terminam vidas demasiado curtas, em tudo inacabadas.

Não sei se há quem lide bem com a morte, quem saiba olhar para ela de lado sem se deixar machucar por dentro. Talvez todas as formas de lidar com o fim sejam apenas o meio que cada um encontra para se preservar. Negá-lo, aprender com ele, aceitá-lo como se aceita um dia de chuva.

Eu consigo entender a morte. Consigo antever a sua inevitabilidade. Compreendo por que pára o coração. Encontro uma lógica inicial para os processos fisiológicos que desfilam rumo ao fim. Sei que há sinais e achados demasiado eloquentes e sei o caminho inexorável a que levam. Entendo que tentar contrariá-los por demasiado tempo é vão e inglório. Aceito que o fim não pode ser protelado, quando se torna ineludível.

Mas não consigo aceitar a amputação que é, ao mundo que por cá fica, a perda de uma vida. Amputação é a palavra certa: perder as pessoas de quem mais gostamos é perder uma parte de nós. Assim como não sabemos caminhar sem uma perna, não sabemos como prosseguir caminho sem aquela parte da nossa essência. E quando, por fim, a vida parece retomar o seu rumo, continuamos a sentir aquela ausência como uma dor fantasma.

Assim como, em tempos, tive uma forma de artrite que me ajudou a entender a dor que os «meus» doentes descrevem, tive também uma perda tão grande, que não consigo alhear-me do sofrimento de quem se vê amputado de uma parte de si. E este sofrimento não se molda pela razão: a certeza de que a agonia de quem nos deixa chegou ao fim, a noção de que já havia vivido uma vida longa e repleta, a ideia em que alguns crêem de que algo de melhor há depois do que conhecemos e para onde eles caminharam antes de nós — nenhuma dessas verdades amenizam a dor da perda a quem a sente.

Acredito, contudo, que cada vida persiste por muito mais tempo do que aquele em que passeia pelo mundo. Cada pessoa que parte vive nos filhos que deixou: o seu olhar, o seu gesto, o seu génio — todos eles serão reconhecidos nos descendentes que deixam. Viver é também, verdadeiramente, a responsabilidade de manter viva a herança que nos deixaram nos genes. O meu pai vive em mim, vive através de mim, aparece aos outros através das minhas mãos e do meu temperamento. Mas não são só os genes: há também a memória. As pessoas só deixam verdadeiramente de existir quando todos aqueles que acarinham a memória da sua existência desaparecerem também.

Aceitar a morte e aceitar a perda são, para mim, coisas muito diferentes.

Passados quase seis anos, pouco mudou. Lido com a morte mais do que desejaria, e aprendi que o momento em que ela chega raramente se pode contrariar. Mas não aprendi ainda a aceitar que se esvaiam as pessoas do nosso mundo.