Ai as praxes e tal…

por Maria Sobral | 2014.02.13 - 10:13

Não, não vou falar do Meco, não vou desenvolver nenhuma teoria explicativa e muito menos tomar posições.

Com tudo o que se tem falado, até parece que passei pela praxe como quem passa por entre a chuva não se molhando. Há algum tempo que já me tinha interrogado se o Código da Praxe que conheci em Coimbra era extensível e aplicado ao resto do país, infelizmente percebo agora que não. Em Outubro deste ano quando iniciei um novo ciclo de estudos na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, reparei em “Doutores” (estudantes com duas ou mais matrículas) a praxar caloiras e vice-versa, o que para mim era dado como proibido, à luz do atrás Código referido. Quando interroguei um colega acerca disso pasmei, afinal neste estabelecimento de ensino os Doutores são padrinhos de caloiras e as Doutoras têm afilhados caloiros, estranho, mas aceitável se forem cumpridos os restantes limites do respeito, dignidade humana e da sensatez. Mas se pasmada estava indignada fiquei, quando por eventos recentes (Meco) fiquei a saber que em algumas instituições de ensino superior há Doutores a serem praxados por Doutores, coisa monstra na Coimbra por onde andei!

O meu primeiro dia de praxe não foi muito mais do que aprender a responder a umas quantas perguntas (por exemplo: qual a sua estrebaria?), e contar as escadas monumentais subindo-as e descendo-as várias vezes. Da segunda e terceira vez, as canções levemente adulteradas para uma certa javardice já tinham de estar decoradas, uma vez que foram fornecidas de antemão, e cantava-se…nos intervalos da cantoria, faziam-se brincadeiras: pega-monstro humano, bilhar humano, pudins Danone, comer de mãos atadas e sem talheres, corridas de pés atados a transportar um ovo numa colher de sopa, saltar ao eixo, e umas quantas mais elaboradas das quais resultavam fotos muito engraçadas, dar iogurte a um colega estando vendada é aquela que melhor recordo. Recordo porque ficou imortalizada em papel fotográfico e só anos mais tarde, vim a vislumbrar que aquele a quem dei o iogurte e lambuzei a cara nesse dia, tornar-se-ia um dos meus melhores amigos da faculdade e que mantém até hoje, aliás, todas as amizades começavam aí, nas brincadeiras, nos risos, nos desabafos dos primeiros dias de praxe. Em menos de uma semana passávamos de conhecer uma ou duas pessoas, para afirmarmos com certeza que conhecíamos o departamento inteiro…isto era integração…toda a gente sabia o nosso nome e a terra de onde vínhamos. Após as brincadeiras, aqueles que livremente o quisessem fazer, poderiam embarcar na descoberta da oferta vinícola das tascas circundantes, das quais lembro com muita saudade o Pratas e o Pinto, e era aqui que o fado de Coimbra se entranhava, com muito traçadinho à mistura. Bebia quem queria, e nunca me senti na obrigação de o fazer só porque sim ou porque receava represálias. Nestas incursões, descobríamos os cantos à cidade toda, sabíamos nomes de ruas, avenidas e praças, nomes de cafés, restaurantes, bares e tascas típicas. Em pouco mais de duas semanas Coimbra deixava de ser um bicho papão para passar a ser um livro aberto, que poderíamos desfolhar com conhecimento durante os anos que durasse o nosso percurso académico. No meu terceiro dia de praxe foi altura de proceder ao batismo pelo (mais) veterano do meu departamento, jeropiga numa colher de pau, ou para quem (ainda) não degustasse bebidas alcoólicas, água del cano, o importante era ajoelhar e beber, mas eu nesse dia trazia calça de tecido e alertei para o facto de ir ficar com os joelhos sujos do verde da relva, nada que suscitasse apoquentação entre os Doutores, “a caloira tome lá uma folhinha do meu caderno que assim já não se suja”.

No ano seguinte chegou a minha vez de praxar, de ter uma caloira só minha, e não fiz mais do que aquilo que tinha aprendido no ano anterior, divertir-me, diverti-la, integrá-la e dar-lhe a conhecer que para além de ter entrado naquela Universidade, tinha também começado a sua viagem pela imensa cultura e beleza da cidade de Coimbra e da tradição académica, e afirmo sem sombra de dúvidas que por isso é que “Coimbra tem mais encanto, na hora da despedida”. É que quando de lá saímos é este convívio respeitoso, integrador e memorável que todos recordamos com saudade, talvez também os exageros de certas noites que levavam aos exageros dos resultados, e os quais só lembrávamos no dia a seguir…algumas vezes porque as “provas” ainda se encontravam espalhadas pelo quarto alugado, e quando não lembrávamos…alguém se lembrava!

Tive sorte? Não, acho que não. Tínhamos era respeito, e seguíamos o Código, simples, não?

Geóloga por graduação e afeição telúrica natural. Formadora na Escola Profissional de Sernancelhe. Técnica dinamizadora do Centro Interpretativo Aldeia da Faia. Promotora de consciência ambiental e cultural.

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