Afinal o BES terá impacto no futuro de Portugal

por Norberto Pires | 2014.10.25 - 22:42

A partir do Luxemburgo ficamos a saber pela boca do primeiro-ministro que o que “aconteceu ao BES terá consequências do ponto de vista económico no futuro de Portugal”. Apesar do negação sistemática, esta não é uma notícia surpreendente para os mais atentos. Não deixa no entanto de ser triste. É que somente 24 horas antes, no parlamento que é a casa da democracia e onde reside a legitimidade democrática, a Ministra de Estado e das Finanças tinha dito, em resposta a um deputado, que “o Governo não espera qualquer impacto do BES na atividade económica, nem no Orçamento de Estado de 2015”. O que aqui surpreende não é a contradição, pois de facto já estamos habituados a este tipo de comportamento por parte dos vários agentes políticos sejam eles da maioria ou da oposição, mas sim a muito reduzida distância temporal entre as duas declarações contraditórias e a aparente falta de comunicação e concertação de posições entre os mais altos dirigentes do Estado.

Entretanto, o Diário Económico revelou que o Banco de Portugal (BdP) tinha dado dois dias a Vitor Bento para salvar o BES. Aparentemente o BdP teve conhecimento dos prejuízos astronómicos do BES no dia 27 de Julho de 2014, 3 dias antes de os anunciar oficialmente, fazendo por carta um ultimato ao BES no dia 29 de Julho: Vitor Bento tinha 48 horas para apresentar um plano de restruturação que permitisse o reforço de capital necessário, pois caso contrário o BdP ameaçava intervir no banco.

O regulador (BdP) quando enviou essa carta ao CEO do BES, Vitor Bento, informou a CMVM sobre a situação calamitosa do BES? Não. Mas como não se o vice-Governador (Pedro Neves) antecipava na carta enviada a Vitor Bento que “com um elevado grau de certeza, considerando a magnitude dos resultados negativos” o que conduziria a “uma situação de incumprimento dos rácios de solvabilidade em vigor, a partir do momento em que as conclusões definitivas”, as quais teriam de “tornadas públicas ainda durante” essa semana? Como pode o BdP não ter avisado a CMVM quando exige do BES um “… plano de reestruturação (que) deve incluir a apresentação de um plano credível” para realizar “uma operação de aumento de capital com recurso a capitais privados, com a indicação de um calendário detalhado e de garantias de colocação, no montante necessário”?

Mas a verdade, é que o BdP nada disse ao regulador da bolsa. A CMVM perante essa informação poderia ter suspendido a cotação das ações do BES impedindo assim a avassaladora perda de valor que se registou nesses dias. No dia 29 de Julho o BES perdeu 10% do valor. Aliás, entre 28 de Julho e 1 de Agosto o BES perdeu 72% do seu valor em bolsa, ficando a valer 12 cêntimos por ação. Esta desvalorização tem sido um dos aspectos mais polémicos deste processo, dado que se suspeita de fugas de informação ao longo da semana. Esta forte desvalorização foi, além disso, uma das razões invocadas pelo BdP para justificar a resolução do BES, a 3 de Agosto.

Perante isto só me resta perguntar: está aí alguém ou já foram todos embora? Alguém assume responsabilidades e faz mea culpa ou fazem-se todos de mortos? Quem responde aos Portugueses sobre esta enorme e caríssima trapalhada que envergonha o país e, citando Pedro Passos Coelho, “terá consequências do ponto de vista económico no futuro de Portugal”?

 

(Publicado no Diário As Beiras de 25 de Outubro de 2014)

Professor Associado da Universidade de Coimbra foi Presidente do Conselho de Administração do Coimbra Inovação Parque e Membro do Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia. Possui Mestrado em Física Tecnológica e Doutoramento em Robótica e Automação pela Universidade de Coimbra. É o Editor do jornal "Robótica". Autor de cinco livros na área da robótica e automação tendo publicado mais de 150 artigos científicos e tecnológicos.

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