Adaptações

por Rui Coutinho | 2014.04.24 - 19:04

Num recente estudo realizado em 4000 locais de aquisição de bens, promovido pela Kantar Worldpanel, verifica-se que 91% das famílias portuguesas adquiriram pelo menos um produto com preço especial. Segundo a APED (Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição), do total de vendas de 2013, 25% foram realizadas recorrendo a promoções. Desta quota, 54% dos consumidores compraram bens de grande consumo com descontos imediatos (50%), 77% aderiram ao conceito “leve 2, pague 1” e 52% acumularam descontos no cartão cliente.

A liderar as promoções (preço especial, descontos imediatos, talões, pague 1 deve 2) estão as cervejas, os iogurtes e os detergentes para a máquina da roupa. A secundar este grupo, ficaram as carnes congeladas, os cereais, os refrigerantes com gás e os detergentes para a máquina de lavar a louça. Todos estes produtos têm uma característica comum: o seu alargado prazo de variedade. Isto é, não se tratam de produtos perecíveis como são o caso dos produtos frescos (carne, peixe, fruta, hortícolas).

As promoções promovidas pelas marcas próprias redundaram ainda numa diminuição da quota das marcas brancas que durante alguns anos registaram aumentos sucessivos. Em termos globais, o seu quinhão diminuiu dos 42.5% em 2012 para os 40.8% em 2013. No caso do Pingo Doce, a redução foi de 61% para 54%; o Lidl caiu dos 81% para os 80%; o Continente manteve-se nos 51%; e a cadeia Auchan aumentou dos 41% para os 43%.

Neste cenário, as duas maiores cadeias de distribuição (Continente e Pingo Doce) viram ainda aumentar os seus níveis de fidelização em 2013. O Pingo Doce atraiu mais 130 mil novas famílias, que representam um aumento de 2%. A quota de 35.2% manteve-se na posse do Continente, seguida pelo Pingo Doce com 23.9%. Nas restantes cadeias, registou-se uma diminuição da frequência o que impôs uma remodelação da política definida até à data. O exemplo mais evidente desta alteração recaiu no Lidl, com a introdução de pão e peixe frescos, bem como de frutas e hortícolas em maior número e de origem nacional.

Estes novos fenómenos não são mais do que readaptações necessárias de fazer por via da diminuição do poder de compra dos consumidores, pelos motivos conhecidos por todos. No caso concreto das promoções, constata-se ainda que a estratégia não se tem traduzido num aumento, mas sim na diminuição da sua aquisição em 1.5%, face a 2012.

Importa referir que o grande volume de compras familiares recai actualmente em produtos frescos (30.5%: carnes, peixe, frutas e hortícolas) onde ainda não se verificam de modo massivo as ditas promoções. No entanto, esta situação encontra-se paulatinamente em alteração e estes provavelmente passarão a constituir o novo epicentro. Até à data, em particular nas zonas urbanas, o consumo destes bens frescos parece recair no designado comércio tradicional especializado (peixarias, padarias e talhos) que aumentou o volume de vendas em 2.7%, relativamente ao ano anterior.

Durante o ano de 2013, as famílias portuguesas gastaram 2238 € em compras de bens nas cadeias de distribuição, com uma alteração do seu comportamento: aumentaram a frequência nas visitas, mas cumulativamente diminuíram em 3.2% o volume de aquisição.

Importa ainda referir que as duas maiores cadeias de distribuição, responsáveis por 50% do consumo, relatam que adquirem 75% dos bens frescos e perecíveis em Portugal mas ainda assim conseguiram alcançar o quarto e o quinto lugares no ranking das maiores empresas importadoras, lideradas pela Petrogal, Galp Gás e Autoeuropa.

No entanto, a Galp e a Autoeuropa são também as empresas que mais exportam e aqui é que está a grande diferença que as separa e que muitos temem: o aumento do consumo de produtos e bens não nacionais.

As vendas no retalho alimentar durante os dois primeiros meses de 2014 registaram um aumento de 0,5% face a 2013. A sua proveniência será maioritariamente nacional?

 

 

Técnico Superior a exercer funções na Escola Superior Agraria de Viseu (ESAV) com ligações a projectos agrícolas e agro-alimentares é Bacharel em Engenharia Agro-Alimentar pela ESAV, Licenciado em Enologia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) Mestre em Biotecnologia e Qualidade Alimentar pela UTAD e com o Curso de Doctorado em Bromatologia e Nutrição pela Universidade de Salamanca.

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