ACERCA DA ESCRITA DE FREUD

por Maria José Azevedo | 2019.07.04 - 12:38

Escrever para progredir no pensamento

Foi a partir do tratamento dos casos de histeria (Freud, 1893)  e da sua narrativa que Freud estabeleceu os pilares da fala e da escrita como basilares da ciência psicanalítica. Escrever para poder pensar, escrever para compreender, escrever para investigar e para instruir, constituíram as suas bases motivacionais para a escrita, não só enquanto investigador e psicanalista, como também para o escritor que ele também foi.

Freud, absorvido pela descoberta da vida psíquica, descobrindo quer a representação ou o afeto inquietante, o estranho, quer a experiência assinalável, a marcante, quer a traumática, a intolerável, encontrou na escrita e na sua associação de ideias, uma via para a transformação psíquica, para a sublimação e para as transmissão da sua descoberta das leis psíquicas.

A escrita enquanto fratura concetual   

É mediante a escrita que se opera uma fratura concetual entre o self que vivencia a experiência em si e o self observador dessa mesma experiência o qual depura a vivência ocorrida através da reflexão em direção à maior abstração. É uma fratura concetual porque releva, não só de uma ordem superior da experiência, como também de uma rutura com o estatuto do observador, no registo da observação passiva, para se elevar ao de narrador reflexivo-ativo.

É deste modo que concebo a função da escrita na ciência, desde a escrita dos casos, no caso de Freud, à escrita em psicanálise e em psicoterapia psicanalítica nos nossos dias, como participante desta mesma ordem de fenómeno psíquico dúplice: abstratizante e fraturante. Abstratizante no sentido da procura do conceito e das relações abstratas que unem ou separam os factos psíquicos; fraturante, no sentido da passagem do sujeito experiencial para o sujeito reflexivo que aprende e medita sobre a experiência.

Um diálogo através da escrita

Assim, é nossa convicção de que foi com e através da escrita que Freud descobriu e criou a psicanálise; que Freud transitou para a abstração, para a construção de uma teoria, para a fratura entre a sua experiência vivida e reflexão sobre a mesma. Damos como exemplo a escrita da sua auto-análise, a qual progrediu significativa e criativamente a partir da análise dos seus sonhos, em simultâneo com a escrita dos casos das análises que fazia aos pacientes.

Na escrita de Freud coexistem, quase em simultâneo, os processos de diálogo, de transformação e de descoberta. Freud terá encontrado na via epistolar, mantida não só com Fliess mas também com outros cientistas, como foi o caso de Einstein, com poetas e romancistas, como Romain Rolland, Stephen Sweig, filósofos e teólogos como Oskar Pfister, entre tantos outros, o diálogo intersubjetivo que alimentou a sua própria subjetividade.

Para se poder melhor aquilatar da importância deste diálogo e da sua relação com a escrita, cito o exemplo da Dr.ª Maria Fernanda Gonçalves Alexandre, psicanalista, a qual me confidenciou, num dado momento da nossa relação, que escrevia como forma de descoberta de algo que, tendo surgido na sua prática clínica, se lhe afigurava como incompreensível. Extrapolando para o papel da escrita em Freud, depreendemos que foi através desta que ele procurou a perspetiva do outro, interno e externo, conhecido ou inconsciente, real ou imaginário, e com ele estabeleceu um diálogo criativo. A criação escrita impôs-se, pois, como método de descoberta para a psicanálise. Podemo-nos interrogar: teria existido psicanálise se não fosse a escrita ou, se a via de transmissão fosse outra, a oral, ou a visual?; existiria psicanálise se o registo dos casos se operasse por vídeo ou através do gravador, estando dispensadas do processo de transmissão do caso as operações de transformação psíquica e de diálogo intra e intersubjetivo? Haveria psicanálise sem a transformação subjetiva do sujeito, a qual permite a construção de um outro sujeito? As respostas surgem-nos, de imediato, na mente.

A emergência de uma fratura existencial no leitor

Retomando Freud e progredindo da análise da escrita em direção à literatura, ou seja, indo mais além do nível do registo do caso, as capacidades reflexiva, literária e expositiva de Freud, aliadas à sua capacidade investigativa, emprestaram à ciência nascente um toque mágico-artístico bem como incutiram, e ainda incutem no leitor, na atualidade, um entusiasmo e um interesse os quais habitualmente só são despertados pela leitura das obras literárias.

Na verdade, pela leitura da obra de Freud o leitor despoja-se das suas circunstâncias e do seu eu para penetrar no universo do autor; trata-se de uma ruptura instituída pela leitura da obra. É esta descontinuidade, a que reclamo de segunda fratura, a existencial, a qual se opera no leitor após o contacto com Freud – não se é o mesmo após a sua leitura –, uma das características centrais do discurso freudiano: trata-se de um discurso transgressivo, mesmo para o leigo que com ele possa contactar.

Tomando, por exemplo, o meu caso, a leitura de Totem e tabu, de Os chistes e as suas relações com o inconsciente, de A interpretação dos sonhos e de A psicopatologia da vida do quotidiano entre os catorze e os dezasseis anos de idade, se bem que incompreendida a sua dimensão científica naquela época, tornou-se possível pelo prazer que tal me proporcionou e pelo novo olhar que me possibilitou. Trata-se de uma mudança de perspetiva motivada pela leitura, a qual, numa determinada idade, operou uma fratura radical nos nossos pensamento e discurso. Não seríamos hoje nem psicanalista, nem, sendo-o, seríamos alguém apaixonado pela expressão literária.

A obra de Freud e a mudança de paradigma

Essa mudança existencial que se opera no sujeito que contacta com a obra de Freud teve uma expressão social global, a qual se manifestou na alteração que se refletiu a nível societário na modificação de paradigma da mentalidade (Ariès, 1988), mudança que foi desde a consideração da infância, do inconsciente, da sexualidade, à consideração da universalidade da dimensão psíquica e à descoberta das suas leis, ao padecimento e à prevenção da doença mental, etc, as quais mudaram a sociedade.

A sua obra permanece como um diálogo permanentemente aberto, e, por isso mesmo, um diálogo transgressor e questionante das instituições que nos regem e das mentalidades que nos oprimem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ARIÈS, Philippe (1988): A criança e a vida familiar no Antigo Regime, tradução de Miguel Serras Pereira e Ana Luísa Faria, Lisboa, Relógio D’Água.

BION, Wilfred (1991 [1962]): Aprender com a experiência, Rio de Janeiro, Zahar.

CASEMAN, Patrick (2002): On Learning from the Patient, Londres, Brunner-Routledge.

DIAS, Carlos Amaral: Costurando as linhas da psicopatologia borderland (estados-limites) Lisboa, Climepsi.

FREUD, Sigmund (1969 [1893]): «Estudos sobre a histeria», in Obras completas de Sigmund Freud, vol. II, Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, Sigmund (1969 [1900]) «A interpretação dos sonhos»in Obras completas de Sigmund Freud, vol. V, Rio de Janeiro, Imago.

FREUD, Sigmund (1969 [1901]) «Sobre a psicopatologia da vida quotidiana»in Obras completas de Sigmund Freud, vol. VI, Rio de Janeiro, Imago, pp. 217-228.

FREUD, Sigmund (1969 [1905]) «Os chistes e as suas relações com o inconsciente»in Obras completas de Sigmund Freud, vol. VIII, Rio de Janeiro, Imago.

Maria José Vera*


* Nome literário de Maria José Martins de Azevedo, psicóloga, psicoterapeuta, psicanalista e escritora.

Maria José Azevedo, é psicóloga clínica, psicoterapeuta e psicanalista. Foi fundadora da Sociedade Portuguesa de Rorschach e Métodos Projetivos, da Associação de Psicoterapia Psicanalítica na Infância e nos Jovens e da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica. É membro da International Psychoanalytical Association, da European Psychoanalytical Federation e da Société Européenne pour la Psychanalyse de l’Enfant et de l’Adolescent.

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