A zoofilia dinamarquesa

por Rui Macário | 2015.02.28 - 15:17

EUDAIMONIA

 

 

Está em discussão no Parlamento dinamarquês a proibição da prática de bestialismo. O que quer que seja que se pense quanto ao assunto o certo é que uma manchete pode dar a entender que a Dinamarca é o que não é e que os dinamarqueses são outro qualquer tipo de pessoas parte de outro qualquer tipo de civilização que não aquela em que os considerávamos.

A dita manchete transporta-nos para conotações assertivas quanto aos próprios dinamarqueses… nomeadamente quanto a uma “tipologia de interação” que aparentemente não só é assumida como é igualmente considerada frequente – de tal molde que justifica debate público e lei específica. Sem ler a notícia integralmente fica mal a nossa ideia feita, no que aos dinamarqueses diz respeito.

O desenvolvimento da mesma notícia, pelo contrário, informa-nos que a Dinamarca se tem confrontado com turistas estrangeiros que se deslocam ao país única e exclusivamente para dar azo a um fetiche e só daí deriva a proibição ou maioritariamente daí deriva a dita proibição que se quer aplicar. O que refaz a nossa versão perceptiva dos dinamarqueses e da Dinamarca. O nosso conceito e preconceito unificam-se uma vez mais ainda que maculados pela manchete, que se tornará uma memória agoirenta apesar de tudo e alvo de uma putativa piada ocasional de café.

O problema das manchetes é que frequentemente não espelham o conteúdo global do objecto sobre que se quer aportar. Havendo falta de melhor, leia-se a notícia ou idealmente procure-se também uma fonte directa informada e oficial. Porventura há quem leia apenas três palavras e esqueça que o desenvolvimento do que quer que seja implica mais palavras e mais informação que a que nos é imediatamente fornecida: sobretudo quando a edição minimalista é propositada e viciada. O conhecimento não é supletivo, é uma necessidade vivencial. Se não por nós, então pelos outros e ideias que deles fazemos. Os elementos identitários de um indivíduo ou comunidade são maioritariamente manchetes directas e simplistas; corremos o risco de se tornarem perenes…

 

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

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