A violência da violência doméstica: um discurso moralista ou moralizador?

por Ana Albuquerque | 2014.11.21 - 12:08

Nos últimos dias, a expressão violência doméstica, ganhou, de novo, fôlego. Aliás, isto acontece, com maior veemência, todos os anos, por esta altura. Parece que é preciso voltar ao tema, para o debater, esconjurar, denunciar, abaixo a violência, fora os agressores, minimizemos as consequências, diabolizemos o número de mortes e o número de pobres das crianças maltratadas, coitadas, por pais indigentes, negligentes, e outras coisas terminadas em entes (como dementes, por exemplo!)

Canso-me de ouvir este discurso propalado aos sete ventos, ou melhor, nas sete redes sociais, com a avidez de quem quer arvorar-se em defensores, sobretudo elas, da moralidade pública, do mérito social, da igualdade de direitos, de e de…

Convenhamos, a violência sob qualquer forma, física ou psicológica é sempre uma doença. Ponto! Mas não me venham, mais uma vez, com isto e com aquilo, o que se deve fazer, depois! Importa, antes, refletir sobre o que é preciso mudar e mudá-lo, o que é preciso fazer antes que ela aconteça, lá em casa, se é casa, ou barraca ou palácio, ou país, sei lá!

Não será o momento de começarmos a resolver as múltiplas causas, caladas ou gritantes, que a sustentam? Que dizer da vida de famílias sem condições económicas que lhes permitam uma casa limpa, confortável, com pão à hora de jantar? Que dizer das taxas de desemprego? Das taxas de alcoolismo e outras adições? Que dizer das mudanças nos currículos escolares que privilegiam a transmissão de conhecimentos e não uma educação para a cidadania, para a igualdade, para a responsabilidade, para a lealdade, para a honestidade e para o respeito pelos outros na sua dimensão afetiva, relacional e profissional? Que dizer da falta de políticas sérias que priorizem as causas e não os efeitos, o antes e não o depois, sem publicidade nas revistas cor-de-rosa ou nos tais fóruns nacionais, regionais, etc.? (As reais vítimas quase nunca participam nesses eventos sociais e nós sabemos porquê). Que dizer dos mendigos, dos sem-abrigo? Dos sem acompanhamento médico eficaz? Que dizer das desigualdades no acesso à justiça?

Que dizer da intromissão de terceiros nas relações conjugais, com situações de duplicidade, hipocritamente, caladas durante anos por quem, quando dá jeito, se indigna com a violência das mulheres, coitadas?! Que dizer de todos os que afetam os parceiros, impedindo-os ou amputando-os do direito fundamental ao seu desenvolvimento integral como seres humanos nascidos para se realizarem em todas as esferas da sua humanidade?

Que fazer antes, já, agora, todos os dias?

Deixemo-nos de hipocrisias! Há muitas mulheres e homens todos os dias vítimas de violências várias e não se vitimizam. Lutam pelos seus direitos nos seus locais de trabalho, quando os têm, nas associações e organizações a que pertencem, quando podem fazê-lo, e, sobretudo, nas suas práticas diárias de honestidade e de respeito por todos e por cada um na sua individualidade, sem protagonismos oportunistas deste ou daquele grupo, desta ou daquela individualidade ou candidato a!

As causas antes dos efeitos, minhas senhoras e meus senhores!