A verdade do desemprego (e vice-versa)

por João Fraga | 2013.12.27 - 12:00

“O emprego começou a crescer e, em termos líquidos, até ao terceiro trimestre foram criados 120 mil novos postos de trabalho”. “O desemprego (…) tem vindo a descer mês após mês, e em particular o desemprego jovem”. Excertos da mensagem de Natal do Sr. primeiro-ministro (PM).
Carlos Drummond de Andrade, (O Avesso das Coisas), escreveu que “a explosão da verdade gera tanta poeira, que, por amor à limpeza, buscamos evitá-la”.
Parece que, pelo menos no que respeita a emprego e desemprego, o PM quis proferir uma mensagem limpinha da “poeira” de certas verdades. Por exemplo, resolveu “começar” o ano só no significativo dia 1 de Abril (o ano começa “quando um homem quiser”) e, assim, “limpou” o 1º trimestre (em que se destruiram cerca de 100.000 empregos) dos “postos de trabalho criados” (realmente, só 21.800). Também limpou a poeira da verdade de que, segundo o IEFP, relativamente a Novembro de 2012, embora o desemprego global tenha diminuído (-0,8%) o desemprego dos jovens (menos de 25 anos) aumentou 2,2% (representam 13,5% dos desempregados).
Mais “poeira” é a que o INE alimenta: relativamente ao 3º trimestre de 2012, aumentou o desemprego de pessoas (em regra, os jovens) à procura do primeiro emprego (+5,4%) e com curso superior (+6,5%), bem como com mais de 45 anos (+1,5%) e há mais de um ano (+11,7%).
Além disso, não é raro que sobre emprego e desemprego outras verdades, de tanto serem limpas da “poeira”, se tornem invisíveis nas mensagens de Natal (e não só). Uma é a de que, por efeito da emigração, a diminuição do desemprego é mais percentual que quantitativa. Outra é a de que assenta muito no grave “empoeiramento” da perda de qualidade do emprego por diminuição dos salários, degradação das condições de trabalho e precarização dos vínculos laborais (que afecta mais os jovens), visto que aumentou a contratação a termo (1%) e diminuiu (3,1%) a contratação permanente.
No Natal deste ano, o PM julgou por bem evitar estas verdades “empoeiradas”, mostrando-nos só as “limpinhas”: “Foram criados 120.000 postos de trabalho” e “o desemprego (…) tem vindo a descer mês após mês, e em particular o desemprego jovem”.
Mesmo no Natal, a verdade do desemprego não tolera o desemprego da verdade.

Inspector do trabalho (aposentado), 67 anos, licenciado em Gestão de Recursos Humanos, com pós-graduação em Psicologia do Trabalho pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, residente em Santa Cruz da Trapa.

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