A separação

por Rufino Fino Filho | 2014.03.09 - 05:25

O Trocas e o Guedelhas, vizinhos desde putos e com a amizade consolidada na ida aos ninhos, nos banhos no rio à revelia dos velhotes e no roubo da fruta pelos quintais das redondezas, tinham por hábito passar pelo Zé Raboto (Deus o tenha!), e fazer lastro para o jantar com dois ou três finos. A vida com alguma ventura, fora-lhes comendo a juventude, e, as legítimas e os filhos, deram-lhes como prenda, as rugas e o ar cansado de todos os dias.

O Trocas metera-se na construção civil e, fizera uma pequena sociedade com um primo direito quase por imposição da família. O Guedelhas, feito o 7º ano, lá conseguiu meter-se nas Finanças (dizem que com a ajuda do Chefe Matos) e entrou no mundo do funcionalismo público com sucesso, fintando todos os que esperavam e acreditavam que um dia seria posto na rua por indecente e má figura.

Certa ocasião, depois meia dúzia de canecas -quando a vontade já só manda metade e o sentimento começa a navegar entre a língua e a cabeça- o Trocas declarou:

– Sabes pá! Descobri uns lances estranhos e acabei com tudo, quase deu morte. Tou na fase da divisão dos bens… Separação é f…! Um gajo bem quer aguentar, esquecer e deitar para trás, mas não dá!

– Porra, pá, é f…. mesmo…

– Tou meio doido, mas agora vou organizar a minha vida sozinho e de forma diferente. Não aguento tanta traição… Sou incapaz de enganar alguém e já me sinto a mais… Foi difícil mas a decisão está tomada…

O Guedelhas estava a viver o sofrimento do amigo e sentiu que devia dizer alguma coisa naquele momento tão triste. Com a voz arrastada e lágrima no canto do olho, arranjou coragem para dizer:

– Olha, Trocas, sabes de uma coisa? Foi bem melhor assim, pá. A tua mulher andava a dá-la toda a gente… e os tipos que a comeram disseram que ela é mais puta que a imperatriz Teodósia de Bizâncio, aquela que gostava de ser comida por três escravos núbios ao mesmo tempo.

– Porra, pá!! Eu separei-me foi do meu sócio!