A saúde na urgência

por Norberto Pires | 2014.10.31 - 20:20

Esta semana recorri ao Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra (CHUC) para uma emergência, acompanhando um familiar. Durante esse tempo pude observar os serviços e a forma como se lidava com as várias situações que iam aparecendo. Fiquei verdadeiramente impressionado com o que vi. Se os CHUC são o melhor hospital do país, nem quero imaginar como serão os outros, por esse país fora.

A primeira sensação que tive foi a de uma gritante e escandalosa ausência de experiência. A esmagadora maioria, senão totalidade, do pessoal médico é recém-formado e portanto sem a experiência necessária para um serviço de urgência. A triagem foi feita por uma enfermeira. Não compreendo as duas situações. Exigia-se um médico experiente na triagem e a presença visível de pessoal médico experiente acompanhando os mais novos, necessariamente em formação, garantindo uma resposta eficaz às várias situações clínicas.

A segunda sensação que tive foi a de uma grande desorganização, por falta de pessoal, desmotivação, sobrelotação e desorganização. Na verdade vai tudo desaguar aos CHUC, sem o necessário backup de periferia, pelo que, com a gritante falta de recursos, as situações estão já para além do aceitável nas condições oferecidas para tratar com dignidade e cuidado os vários casos. Nota-se o esforço de todos, mas também um enorme cansaço, especialmente de enfermeiros (cujos salários se mantiveram, ou foram reduzidos, aumentando a carga horária).

A terceira sensação que tive foi a de um grande desânimo por parte do pessoal médico, de enfermagem e auxiliar. Falam de cansaço e de vontade de terminar com este pesadelo. E relatam situações verdadeiramente alarmantes atribuindo-as ao desinvestimento público bem evidente.

Como país não estamos a fazer bem. Nada justifica o desinvestimento na saúde dos portugueses. Nada.

Não podemos exigir aos cidadãos esta GIGANTESCA carga de impostos e depois oferecer-lhe serviços de qualidade muito sofrível. Qualidade que resulta de desorganização, não utilização de recursos disponíveis (numa urgência devem estar pessoas jovens e pessoas experientes, complementando-se e permitindo a transferência de experiência), ausência de condições materiais e desrespeito pelos cidadãos.

No final (depois de várias horas numa urgência), paguei quase 50 euros de taxas moderadoras. Imaginei uma pessoa com ordenado mínimo a precisar desta urgência. Isso equivaleria a 10% do seu salário para tratar uma emergência que essa pessoa teria todo o direito, como eu e qualquer outro cidadão nacional, de ver tratada. Fica-me um aperto no coração. Não é este o país que quero.

Confesso o meu total descrédito na política, nos políticos, nos partidos e na forma como estamos a gerir este país. É altura de todos nós percebermos que é necessário adicionar competência, disponibilidade e avaliação a quem gere politicamente os recursos que são de todos. Não sei se é a democracia que não funciona ou se somos nós que não queremos saber em quem votamos e encaramos as eleições como um jogo Benfica-Sporting em que cada um tem o seu clube. Mas não pode ser e não pode continuar.

O que estamos a fazer a este país é inaceitável. Não aceito que se gastem milhares de milhões em coisas de que não precisamos, ou a tapar buracos financeiros resultantes de má-gestão e fraude, e depois se corte na saúde, na educação, na cultura e na segurança-social. O que fizemos, o que insistimos em não resolver por falta de capacidade e de vontade reformadora, é já criminoso. Por este caminho, com gente dos partidos a aceder a lugares para os quais não está preparada, sem capacidade de colocar os melhores, sem capacidade de exigir muito mais de quem gere os interesses de todos, temo o pior. Aliás O PIOR, o inaceitável (de terceiro mundo), já está a acontecer. Espero que compreendam o meu desânimo e a sensação que tenho, muito forte, de que isto vai correr muito mal. E não vejo soluções no horizonte. A única que me atrevo a avançar é a de que conseguirmos, todos, debater o país, o que queremos e como nos vamos organizar para o obter. Desta forma, com estes partidos sem capacidade de mudança, com estes políticos sem chama, sem ideias, sem capacidade de reformar, agarrados a ideias feitas que eles próprios não compreendem, centrados nas suas clientelas e jogos partidários, com estas práticas, com este carreirismo inaceitável, com esta incapacidade de atrair os melhores afastando a mediocridade que tomou conta do Estado e dos recursos nacionais, não vamos lá e teremos um colapso em breve.

 

(Publicado no Diário As Beiras de 31 de Outubro de 2014)

Professor Associado da Universidade de Coimbra foi Presidente do Conselho de Administração do Coimbra Inovação Parque e Membro do Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia. Possui Mestrado em Física Tecnológica e Doutoramento em Robótica e Automação pela Universidade de Coimbra. É o Editor do jornal "Robótica". Autor de cinco livros na área da robótica e automação tendo publicado mais de 150 artigos científicos e tecnológicos.

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