A revolução com classe

por Silvia Vermelho | 2013.12.27 - 11:22

Não vou camuflar a revolta que sinto em relação à prova de avaliação do pessoal docente e em relação ao nosso Estado que se move feito uma barata tonta, como um todo, diluindo as responsabilidades individuais na sua acção desconcertada, irreflectida, irracional. Esta é, pois, a minha declaração de interesses, para que nos foquemos no essencial, exactamente o contrário do que foi feito, por muita gente que compõe a dita “opinião pública”, no dia da prova e dias seguintes.

A comunicação de massas caricaturou os beatos da Igreja como seres altivos que dedicam o seu tempo a policiar e a julgar a moral alheia, mas o dia 18 de Dezembro veio confirmar o que eu já suspeitava: pouca coisa há tão irritante como os beatos institucionais. Ora os beatos institucionais, ou beatos do regime, dedicam o seu tempo a policiar a revolução dos outros. À semelhança da sua beatice, também a revolução tem de ser institucionalizada, regimentada, caso contrário carece de validade. Não pode haver excessos, radicalismos, gritos só dentro de um limite pré-definido de decibéis, acessórios não são bem-vindos e os cartazes têm regras inscritas no seu código genético beato. Ouvimos mesmo o quão “ninguém quereria que aqueles professores fossem professores dos seus filhos”, e vociferou-se contra a “má imagem” que o corpo docente fez passar de si e do seu trabalho.

Não é a primeira vez, claro, que a beatice institucional apela à revolução com etiqueta, ao decoro na manifestação, à eloquência das palavras de ordem. Mas aqui foi especialmente expressiva essa pressão. À revolução, em vez de reconhecida como sendo “de classe”, é-lhe exigida que seja feita “com classe”. Com classe, pois, caso contrário é uma selvajaria. Ora e se há coisa que gente do regime não perdoa ao colarinho branco é que não faça a revolução “com classe” e escolha fazer uma revolução “de classe”.

A revolução, a revolta, o contra-corrente é visceral, não é, nem pode ser, porquanto perderia a sua essência, o pó-de-arroz das franjas do regime. Exigir à alma que se comporte “com classe” é desumano, é despojar o corpo dos seus mecanismos de repulsa inatos, que nos fazem encolher com o nojo e gritar, mesmo que em silêncio, como se as nossas vibrações, por si só, afastassem a ameaça.

Quero seres humanos como professoras/es, sim! Mas também como governantes… Oh, como quero gente em vez de alforrecas!

Silvia Vermelho é politóloga, empresária e activista. Nasceu em Mangualde, onde decidiu regressar em 2012, após 7 anos em Lisboa, para onde entretanto havia ido estudar. Dedica a sua atenção nos âmbitos profissional e associativo ao Poder Local, à Igualdade de Oportunidades e à Cidadania, Democracia Participativo, empoderamento e sociedade civil.

Pub