A resposta alimentar

por Rui Coutinho | 2014.08.29 - 11:30

 

O conflito que há muito se agudiza entre a Ucrânia e a Rússia causou já muitas picardias, transtornos e tragédias entre os países envolvidos. Numa primeira versão, já difícil de temporizar por muitos, estas velhacarias cingiam-se à componente energética, designadamente o gás. Desde a data em que a Ucrânia se aventurou a desenvencilhar-se das amarras da Rússia, em muito instigada pelos EUA e pela UE, todo o processo entrou numa gritante aceleração. Os conflitos terrestres e aéreos sucedem-se com o desfecho conhecido de todos.

Perante a escalada de violência perpetrada e orquestrada, e sem outros meios de suster a proeminência russa, os EUA e a UE resolveram em desespero avançar com um conjunto de sanções. O seu enfoque recaiu no armamento militar, nos capitais da banca que por aí parecem abundar e fáceis de movimentar para outros destinos, e ainda, na tecnologia utilizada para a extracção e produção petrolífera, deixando de lado toda a fileira relacionada com o gás, da qual a UE é fortemente dependente.

Em resposta ao embargo que muitos se prontificaram a contornar, a Rússia entendeu responder a estas restrições utilizando o comércio alimentar como uma das armas de maior impacto. Na base das sanções, segundo as autoridades russas, encontram-se sempre questões sanitárias. As restrições à importação de alimentos oriundos dos EUA e da UE sucedem-se em catadupa. O leite, o queijo e as cebolas oriundas da amiga Ucrânia estão interditos; a carne proveniente de Espanha encontra-se contaminada por bactérias perigosas; a fruta e os legumes oriundos da Polónia não cumprem com os certificados exigidos… E por aqui ficamos.

Em 2013, as exportações europeias agro-alimentares para a Rússia representaram 11,8 mil milhões de euros. No nosso caso, e segundo os dados de 2013 do Ministério da Agricultura e do Mar, a Rússia assume-se como o 15.º destino das exportações nacionais, numa quota que atinge apenas 1% (50 milhões de euros) do seu total. A título de exemplo ficam os valores apurados de 7.3 milhões na carne e 6.2 milhões nos ovos para esse destino.

As expectativas de crescimento exponencial das exportações nacionais com destino à Rússia para 2014 eram de 10% face a 2013 e em Fevereiro do corrente ano a ministra Assunção Cristas deslocou-se a Moscovo com o intuito de promover e instigar as cordiais relações. O que permitia já a 70 empresas exportarem para este mercado a que se juntaram mais 44.

Em face dos actuais embargos decretados por ambas as partes, os governos latino-americanos resolveram entrar também no jogo com enorme celeridade. A Argentina, Chile, Equador e Uruguai trataram de enviar os seus embaixadores, e não os empresários, ao Kremlin para fechar acordos agrícolas, poucas horas depois da Rússia anunciar o embargo de um ano aos produtos agro-alimentares da UE.

A UE e o bloco Mercosul procuram nesta fase avançar a passos largos para subscreverem um acordo comercial num processo que dura já há várias décadas e concomitantemente a UE e os EUA iniciaram conversações sobre o novo tratado comercial transatlântico.

A chanceler Angela Merkel deslocou-se recentemente a Kiev com o propósito de manifestar o apoio ao governo da Ucrânia mas também já se prontificou para mediar o conflito (vá-se lá saber porquê!), assumindo deste modo a Alemanha uma posição de destaque na UE neste âmbito, situação da qual há muito estava arredada.

O actual conflito entre a Ucrânia e a Rússia parece ter consequências de uma dimensão global e certamente irá impulsionar uma nova conspecção geopolítica e quiçá conduzirá também a um desapego nas negociações agro-pecuárias que agora decorrem entre os vários blocos com perdas já possíveis de calcular para muitos.

 

Técnico Superior a exercer funções na Escola Superior Agraria de Viseu (ESAV) com ligações a projectos agrícolas e agro-alimentares é Bacharel em Engenharia Agro-Alimentar pela ESAV, Licenciado em Enologia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) Mestre em Biotecnologia e Qualidade Alimentar pela UTAD e com o Curso de Doctorado em Bromatologia e Nutrição pela Universidade de Salamanca.

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