A morte é um serial killer

por Graça Canto Moniz | 2013.11.28 - 20:21

Os media adoram comemorações. De todo o género: da miséria alheia, do sofrimento alheio, da prisão alheia, da vitória alheia. Enfim: a tragédia alheia é motivo de melodramática reportagem jornalística. Neste quadro, a morte de um intelectual, de um notável, é motivo de tremenda comemoração. Perdão, quero dizer recordação! Fazem-se reportagens, enchem-se páginas de jornais com grandes fotografias aquando da sua morte. Diria mesmo: é preciso a individualidade morrer para se dar a conhecer a sua vida, a sua obra; o país exige-o, os media vomitam-no. A educação colectiva não funciona: um morto, chamado Aldous Huxley, explica em “Sobre a Democracia e Outros Estudos”. Matem-se intelectuais então…, se a única forma de celebrar a sua vida e obra é no momento da sua morte. O problema é do Homem, desta nossa idiota raça que se revê na máxima de Schopenhauer segundo a qual “a perda é que nos ensina o valor das coisas”. A mente humana tem uma capacidade quase infinita para ser inconsistente. E o coração então… Enfim.

No dia 22 de Novembro faz 50 anos que JFK foi assassinado. Mas a cobertura mediática da sua morte ofuscou a morte de dois gigantes da literatura, nesse mesmo dia: C.S. Lewis e Aldous Huxley. Há livros sobre tudo pelo que há um sobre esta coincidência, de Peter Kreeft, “Between Heaven and Hell: A Dialog Somewhere Beyond Death with John F. Kennedy, C. S. Lewis, & Aldous Huxley”.

Claro que, nos dias de hoje, recordar estas mortes só podia, efectivamente, levar à morte de mais uma notável: Doris Lessing. É por isso que estou de luto. No dia em que começarmos a celebrar a vida de génios vestirei outras cores mas, até lá, é verdade sim que a vida humana é dos maiores tesouros da terra mas teremos sempre tendência para acreditar que há um valor superior e supremo. A morte é o primeiro passo para o alcançar. Celebremos, então, catolicamente, a morte.

Graça Canto Moniz é filha do ano revolucionário de 1989 mas é, ela mesma, muito pouco dada a revoluções. Jurista e devoradora de livros, séries, filmes, paisagens e viagens.

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