A minha família é única…

por Ana Beja | 2015.10.27 - 11:17

A minha família é única. Tal como as outras todas! Cada um tem a sua e é com ela que tem de lidar para o resto da vida! Como dizia o meu avô, somos uma grande “cambada”! Muitos, barulhentos e ligados à corrente! Somos todos diferentes e é essa diferença que torna a minha família parecida com o elenco da “gaiola dourada”, embora sem o sotaque francês e o Joaquim de Almeida!

Um almoço ou jantar familiar é uma algazarra dos diabos! Homens para um lado e mulheres para o outro, vinho na mesa e grandes repastos! Eles têm a mania de que são enólogos, e nós (as mulheres), achamos que também percebemos alguma coisa de vinhos, mas somente o bebemos! Não o cheiramos nem o deixamos “abrir” num copo de balão! Bota abaixo e está feito! Começamos as refeições com conversas banais, mas acabamos sempre a discutir ideias e a falar disto ou daquilo. Já se proibiram assuntos à mesa, tais como futebol e política, no entanto os ideais falam mais alto e não há refeição que não acabe parecida com a “quadratura do círculo” ou os “prós e contras”! Não se pode dizer que a comida está salgada ou ensossa, ou que desta vez não “ficou tão bem”. Ouves o Carmo e a Trindade e mais os sinos da sé de Braga até ao fim da refeição, o que faz com que evites qualquer comentário sobre a comida!

Na minha família não há piegas. Qualquer defeito ou tique que se tenha é esmiuçado até à exaustão, com piadinhas e graçolas tolas! E que não se tenha o azar de se escorregar ou cair em público…ninguém te ajuda…pois a risada é tanta que não dá para te socorrer! Também não vale a pena queixarmo-nos. Ninguém liga. Ouvem e fingem que estão solidários, deixando-te à vontade para tomares um remédio qualquer fora da validade que têm na gaveta da casa de banho!

As viagens de família são sempre prazerosas! Nunca conseguimos ir em fila, uns carros vão mais à frente, outros atrás e alguns nunca mais se veem! Quando chegamos ao sítio é sempre uma confusão para estacionar, alguém entrou pelo sinal proibido ou deu um toque num retrovisor qualquer de outro carro, ou se discute com outro carro porque não sai da frente, enfim, sempre descontraídos! Nunca abandonamos um local sem que alguém lá deixe um pertence, fazendo um triste qualquer (geralmente dos mais novos) voltar para trás para a ir buscar (já veio uma carteira pelo correio, do Algarve, pois quando demos pela falta dela já estávamos no Alto Alentejo).

As férias são para descansar. Isto se não for com a minha família. Se formos todos juntos é mais como uma colónia de férias, onde passamos o tempo à espera uns dos outros e a implicar com a roupa fora do sítio, com a mesa que nunca está posta, com a lavagem da loiça…enfim…já para não falar da logística das compras, das saídas para a praia, das idas ao café…é que deslocar 14 pessoas (ou mais) não é tarefa fácil! O que isto tem de bom é que não há monotonias e há sempre alguém que vai parar às urgências com algo partido! Juramos sempre que foi a última vez que fomos todos para uma casa de férias e que durante o ano vamos poupar para um cruzeiro às ilhas gregas (máximo 4 pessoas), mas no ano seguinte caímos na mesma asneira e lá vamos todos em manada!

A minha família é também muito solidária! Se houver algum evento em que tenham de estar presentes e que envolva “comes e bebes” vão todos, sem exceção! Dizem umas palavras de apoio e como o sítio é giro e agradável, mas depois começam a dar ao dente e não há quem os segure! Quando chegam enchem logo o espaço, o que é bom, pois fica logo a “casa cheia”!

Não me posso alargar mais, senão vão ficar muito ofendidos e tenho de fazer as pazes com eles pagando-lhes uma “tainada” num restaurante qualquer, mas não posso terminar sem falar dos Natais!! Não há Natal como o nosso! Ainda somos mais e não imaginam a logística de mesas, cadeiras, camas e almofadas! Ficamos sempre juntos na mesma casa, que se enche de risos e palhaçadas! Ao fim do jantar vamos em manada ao café da aldeia, para o tradicional cálice de aguardente, pois temos de aquecer o esqueleto! O resto do serão é pautado pelo “espírito natalício”, onde costumamos apresentar, com provas e evidências (através de filmes e fotos que vamos “angariando” à revelia das pessoas), tudo o que fizemos nesse ano, pondo a nu todos os nossos deslizes e defeitos! Abrimos as prendas e como somos muitos fazemos um sorteio do tipo “amigo secreto”, revelando nessa noite o feliz comtemplado (quando fazemos os sorteio, que geralmente é em novembro, passadas 2 horas já quase toda a gente sabe quem é que lhe vai oferecer a prenda). Já terminámos a noite de Natal, com perucas na cabeça, a dançarmos ao som do “DJ Renas”!

E isto tudo acontece, porque de certeza que não são só os laços de sangue que unem a minha família. É também a amizade, a compreensão e a paciência (muita) com que nos aturamos uns aos outros! Ultrapassa todas as desavenças ou picardias saudáveis que vamos tendo. Sei que a família não se escolhe. E quando se tem a sorte de nascer numa família como a minha, então ainda bem que tenho de lidar com ela até ao fim dos meus dias, pois sem ela, tenho a certeza de que a minha vida não teria graça nenhuma!