A MÃO AMIGA

por José Carreira | 2016.06.20 - 07:57

 

 

Sopram ventos perigosos nos Estados Unidos da América, a principal potência mundial, e no “velho continente” europeu. De ambos os lados do Atlântico, os populismos xenófobos tornaram-se uma preocupante tendência global.

Donald Trump (politico, bilionário e excêntrico) surfa uma onda de ataque aos imigrantes, insulto às mulheres e de admiração por Vladimir Putin. O candidato republicano à Casa Branca vive do ódio que destila e do medo que provoca nas pessoas. Uma personagem circense que começou por dar muito gozo aos tablóides. Agora, com fundos inesgotáveis, está a transformar-se num candidato perigo, uma ameaça à estabilidade mundial. Um autêntico elefante numa loja de porcelana. Espero que se mantenha fora da loja.

Cidadãos americanos, por favor, não entreguem a chave da vossa nação a um megalómano, pirómano, xenófobo, machista…

Na Europa, a extrema-direita conquista cada vez mais votos. Em Itália, Matteo Salvani ganha popularidade, em França, Le Pen faz o seu caminho com sucesso, na Áustria o candidato mais votado, nas eleições presidenciais, foi Norbert Hof, líder do partido de extrema-direita, que tem um discurso adverso aos imigrantes, aos refugiados e aos muçulmanos.

E na Alemanha? No “motor” da Europa, o partido de extrema-direita alemão Alternative für Deutchland (AFD) alcançou o melhor resultado da direita nacionalista desde o fim da II Guerra Mundial. O co-fundador do partido, Frank-Christian, considera que “os alemães não querem que 60% da população seja muçulmana”. Defende a saída do euro; uma imigração baseada no talento de pessoas que tenham vontade e capacidade de pertencerem à sociedade alemã e considera que “o Islão não faz parte da Europa”. A líder do partido, Frauke Petry, disse no congresso, realizado em Estugarda: “Sempre nos questionámos sobre quando surgiriam finalmente os filhos corajosos que iriam verbalizar os pensamentos da maioria silenciosa e que iriam declarar que a ‘chanceler da nenhuma alternativa’ vai nua. Acredito que esses filhos corajosos somos nós.” Andreas Harlab, porta-voz do partido, em declarações ao semanário Expresso, questionou: “Em Portugal têm muitos imigrantes muçulmanos? Não?”… E sentenciou: “Sorte a vossa”. Falou ainda da iminência da islamização do Ocidente; da falta de integração dos muçulmanos, dos seus hábitos pouco higiénicos e ainda do seu plano estratégico para conquistar a Europa através da reprodução em série. Petry defende, tal como Frank, o fim do euro “demasiado forte para Portugal e demasiado fraco para a Alemanha”. Entende que a Alemanha não pode receber mais gente e alerta “sem uma União Europeia forte, aparece uma Alemanha descontrolada que se torna radical. Talvez outros países possam controlar o nacionalismo de direita. A Alemanha não.”

Felizmente, há sinais que nos sossegam um pouco. Vou dar quatro exemplos que, não sendo suficientes para nos tranquilizar, servem que para não interiorizemos um cenário apocalíptico numa Europa que tem sido capaz, ao longo da sua história, de se reinventar e manter-se como exemplo civilizacional para os outros continentes.

1 – Lamentando o modus operandi (bloqueio de estradas com pneus a arder e arremesso de pedras), os incidentes e as mais de 400 detenções, o enfrentamento dos congressistas do AFD significa que há uma forte reprovação das ideias radicais que defendem.

2 – A imagem de uma mulher – baixa, magra e negra – a enfrentar, sozinha, um grupo de neonazis – altos, fortes e brancos – na Suécia tornou-se viral. O seu punho erguido simbolizou a “mão amiga”, a luta contra o preconceito, racismo e xenofobia…

3 – Na cidade californiana de Costa Mesa, centenas de manifestantes atiraram ovos e gritaram palavras de ordem contra Trump, sob a acusação de racismo e xenofobia.

4 – Segundo Guilhermo Cabrera Infante, “a capital britânica reflete o mundo inteiro”. Londres é uma cidade global. Um belo exemplo do cosmopolitismo londrino é a recente eleição de um filho de imigrante paquistanês para o cargo de Mayor da cidade. De seu nome Sadiq Khan, muçulmano, no discurso de tomada de posse fez a sua auto-caracterização: “Sou londrino, europeu, britânico, inglês, a minha fé é islâmica, de origem asiática, de herança paquistanesa, pai, Mayor…” (The New York Times).

Lembrou: “Se estou aqui hoje é por causa das oportunidades que esta cidade me deu. A minha ambição é garantir que todos terão essas oportunidades. Foi uma mão amiga que a nossa cidade me deu a mim e à minha família”.

A Europa tem em confronto duas forças, a mão que atira pedras e empurra para fora das suas fronteiras o “outro” e a mão que é amiga e acolhe o outro, o migrante, o paquistanês que vê o seu filho ocupar o cargo de maior relevo na city.

Recentemente, em entrevista ao Diário de Notícias, Martin Schulz disse que “A União Europeia é uma bicicleta sem ar nos pneus”.

Enquanto uns tentam roubar os pneus, ainda que vazios, outros esforçam-se por voltar a enchê-los para que a bicicleta continue a fazer o seu caminho. É preciso continuar a pedalar, cada vez com mais força e nos dois sentidos, isto é, no da recuperação económica, como garante da construção europeia, e no do exemplo na defesa férrea dos inalienáveis direitos humanos.