A insustentável levez do molotof

por Renata Aguiar | 2015.10.23 - 09:21

 

Às vezes, acho que a vida é uma permanente contradição. Vivemos a penhorar o presente em prol de um futuro que, eventualmente, nunca chegará.

Encurtamos o tempo com as pessoas de quem mais gostamos porque temos de trabalhar, e trabalhamos mais umas horas para podermos comprar aquela bicicleta maravilhosa que vimos numa montra. Declinamos o fim-de-semana de passeio para poupar algum dinheiro a pensar no carro de que havemos de precisar. Em vez de percorrermos cem quilómetros hoje para celebrar com o nosso velho amigo o seu aniversário, guardamos energias para amanhã cumprirmos as tarefas previstas. Chegamos tarde a casa e deixamos demasiado tempo à espera quem nos aguarda, porque queremos ter a certeza de que merecemos a vida que temos.

O futuro de ontem é hoje. Será que alcançámos algo daquilo por que nos debatíamos então? As pessoas de quem gostamos já pouco sabem de nós, da nossa vida. A bicicleta está parada a um canto, a acusar o desuso. Chegamos ao dia do nosso aniversário e desejamos rodear-nos de quem nada fizemos por merecer. As tarefas continuam empilhadas numa lista que se renova eternamente. E até quem nos aguarda no regresso a casa se vai tornando amargo, por se sentir preterido.

E, contudo, continuamos a viver da mesma forma. A precaver o amanhã. A sonhar com prazeres demasiado efémeros e voláteis. A construir sonhos alicerçados em pouco mais do que nada. A ignorar que tudo o que temos é, efectivamente, o presente — e que o presente rapidamente passa a um nostálgico passado.

Gostava de poder reprogramar-me para não almejar nada mais do que o hoje. E o amanhã seria apenas outro hoje ainda distante.

Gostava que a vida fosse simples e leve como um molotof.

 

Molotof com cobertura de ovos moles

 moltov copy

Ingredientes:

– 8 ovos

– 8 + 8  colheres de sopa de açúcar branco

– 1 colher de chá de farinha de milho

– margarina ou manteiga para untar a forma

 

Preparação:

Pré-aquecer o forno a 180ºC e colocar dentro dele uma taça ou forma larga com água a ferver.

Bater as claras em castelo bem firme. Acrescentar então 4 colheres de sopa de açúcar e bater bem.

Levar ao lume as outras 4 colheres de copa de açúcar, até obter um caramelo claro, que deve ser imediatamente adicionado às claras em castelo, batendo novamente. Juntar também a colher de chá de farinha de milho.

Untar uma forma com chaminé com manteiga ou margarina e verter nela a mistura de claras e açúcar. Bater levemente a forma na mesa, para o merengue ocupar toda a forma, sem deixar espaços vazios.

Levar o molotof a cozer no forno dentro da taça com água a ferver. Após oito minutos [a], desligar o forno e deixar arrefecer com a porta fechada por 10 a 15 minutos. Findo esse período, abrir uma pequena fresta (manter o forno assim aberto interpondo uma colher de pau entre a porta e o forno, por exemplo), para deixar o molotof arrefecer totalmente.

Para os ovos moles, bater as gemas com um garfo. Colocar oito colheres de sopa de açúcar num pequeno tacho, adicionando água apenas para cobrir o açúcar. Ferver até alcançar o ponto de pérola — altura em que uma gota de açúcar ficará suspensa na ponta de uma colher.

Verter lentamente o açúcar sobre as gemas, mexendo bem e energicamente, para evitar que cozam imediatamente. Voltar a colocar a mistura de gemas e açúcar no tacho e levar novamente a lume brando, retirando assim que se visualize a primeira bolha. Transferir rapidamente ara outro recipiente para evitar que o creme coza no fundo do tacho. Os ovos moles estão prontos. Poder-se-á acrescentar 2 a 4 colheres de sopa de leite, para que o creme fique menos espesso.

Retirar o molotof do forno, desenformá-lo e cobri-lo com o creme de ovos.

 

[a] Nota: as quantidades podem ser sempre multiplicadas, na razão de uma colher de açúcar para cada clara no molotof (metade da quantidade em caramelo) e uma colher de açúcar para cada gema nos ovos moles. O forno deve ser desligado após o número de minutos correspondente ao número de ovos utilizados.

Cumprindo estes cuidados cuidadosamente, manter-se-á firme após desenformado.