A impossibilidade de substituir a verdade

por José Carreira | 2013.11.30 - 12:11

“A História contemporânea está cheia de exemplos em que aqueles que dizem a verdade de facto passaram por ser mais perigosos, e mesmo mais hostis, que os opositores reais.”

(Hannah Arendt, Verdade e Política)

 

“Engana-me que eu gosto” ou “com a verdade me enganas” são duas máximas populares que devem fazer-nos refletir… Dizer a verdade, não raras vezes, magoa o recetor da nossa mensagem. Ainda assim, creio que Hannah Arendt tinha razão ao afirmar que “a persuasão e a violência podem destruir a verdade, mas não podem substitui-la.”

Vivemos um período em que se valoriza mais um “elogio fácil”, meramente de circunstância, do que uma crítica construtiva. A verdade perde terreno não para a mentira, mas, note bem, para a “inverdade”. Um eufemismo cínico e bem revelador dos tempos que vivemos, numa “sociedade desorientada” em que os “seres humanos e os partidos políticos são objeto de desconfiança e de descrédito” (Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, IN A Cultura Mundo: Resposta a uma Sociedade Desorientada).

Esta desconfiança e descrédito, no que concerne à política, talvez se sustentem na máxima de que a “política é a arte do possível”. A este respeito, alinho com Slavoj Zizek, que considera a política autêntica como a arte oposta, ou seja, “a arte do impossível”.

Tive uma experiência recente de militância num partido político. Estive de corpo e alma num projeto em que acreditei, enquanto acreditei que poderia ser útil e ajudar a “mudar”. Talvez tenha acreditado, erro de principiante, na política como arte do impossível, capaz de melhorar a coisa pública e que estimulasse o debate de ideias, o mérito e o trabalho de todos e de cada um. Debate? Uma miragem! Meritocracia? Uma utopia!

Não farei a catarse do “soldado” que marcha bem, contrariamente a toda o batalhão. Mas, confesso que senti, muitas vezes, que não estava a acertar o passo. Ainda assim, resisti e acreditei que seria possível contribuir para a mudança do paradigma vigente que tem afastado as pessoas da política e que provocam um sentimento de repulsa em relação a muitos dos seus “atores”. Decidi, após prolongada reflexão, colocar um ponto final à curta experiência quando constatei que Arendt tinha razão: “nos tempos de transformação rápida do mundo, os amigos desaparecem, sugados pelo brilho do vencedor (ou do mais forte), e fica um grande vazio à volta dos que resistem, ou foram marcados com a estrela infamante.”

Saí, tal como entrei, com dignidade e respeito para com todos os membros da instituição e de consciência tranquila porque estou certo do dever cumprido. Certo também da amizade que me liga a quem me convidou para entrar e não deixará de ligar onde quer que possamos estar. Estou de corpo e alma num projeto profissional que me preenche e do qual me orgulho! Sinto-me feliz e com energia para continuar a ser um cidadão ativo a dar o meu contributo sempre que possa ser útil.